sexta-feira, 9 de abril de 2010

GRITOS E SUSSURROS (VISKNINGAR OCH ROP)


NOTA: 10.
"Eu penso sobre suicídio. Constantemente. O pensamento é nojento. É ao mesmo tempo degradante e eterno." Karin

É a primeira que escrevo uma resenha sobre um filme do grande mestre Ingmar Bergman. Ele é um dos maiores autores de cinema, dono de uma filmografia invejável repleta de obras-primas. Talvez ninguém tenha tantas obras-primas quanto ele. Realmente um gênio que gravou seu nome, merecidamente, na história recente do cinema. Morreu em 2007, depois de passar a década de 1990 e início dos 2000 fazendo trabalhos para a TV. Estranhamente nunca venceu um Oscar. Com certeza não lhe fez falta.
O filme se passa na virada do século XVIII, numa casa de campo na Suécia. Toda a casa apresenta diferentes tons de vermelho. Um vermelho forte. Até as transições, que geralmente são feitas escurecendo a imagem num preto, aqui são feitas em vermelho. Uma mulher vai ao seu diário e escreve "É uma segunda feira e estou com dor.". Este é apenas o início de mais um trabalho memorável do diretor.
A mulher é Agnes. Ela deve ter uns 30 anos e está morrendo de câncer. A maior parte do filme ela passa sofrendo com a doença. Quem mais a ajuda é a empregada Anna. Quando Agnes grita de dor durante a noite, ela é quem vai a sua cama para ajudar a aliviar a dor dela. Na casa estão também suas duas irmãs: a linda, infiel e fútil Maria (Liv Ullman) e a amargurada irmã mais velha que odeia seu marido Karin.
Os filmes do diretor sempre tiveram personagens femininos marcantes e aqui não é diferente. Na verdade, elas dominam o filme. Apenas 4 homens aparecem no filme, dois maridos das irmãs, um padre que apenas aparece para rezar pelo corpo morto de Agnes e o médico que também é o caso de Maria. O papel mais significativo entre eles é o do médico e mesmo assim ele tem poucos minutos na tela. Esse é um filme sobre mulheres.
Quem acha que a morte de Agnes anuncia o fim do filme está enganado. É depois de sua morte que acontece a reunião dela com suas irmãs. Ainda que pareça um tanto quanto bizarro, a cena é fortíssima e pode configurar facilmente numa lista das melhores cenas do cinema. Maria lhe diz: "Eu estou viva, e não quero nada com sua morte." Bergman sempre teve essa habilidade especial de misturar o real com sonhos. Aqui ele vai além.
Não é um filme de fácil digestão, assim como maior parte da filmografia de Bergman. Para quem acha que cinema deve evocar emoções, seja de ternura, raiva ou incômodo, o diretor mostra como se faz um trabalho bem feito. Tão perfeito que chega a assustar. Ao final, Anna é chamada por aquela família cruel para ser dispensada. Depois de ouvir o acordo oferecido ela declara: "Não quero nada!", mas vemos depois que ela guardou algo, o diário de Agnes, onde lê: "Isso é felicidade. Não posso desejar nada melhor"

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