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segunda-feira, 4 de março de 2013

HITCHCOCK


NOTA: 6.
- Eu esperei trinta anos para ouvir você dizer isso.
- E é por isso que me chamam de mestre do suspense.

O diretor Alfred Hitchcock continua sendo um dos mais famosos que o cinema já teve. Seja pelo apelo que seus filmes mantém até hoje (imaginem na época do seus lançamentos), ou pela forma que usava sua imagem como forma de publicidade. Seu nome evoca tanta adoração, que alguns de seus filmes não caíram no esquecimento porque simplesmente fazem parte da sua filmografia.
Agora, é interessante ver como focam os filmes como se fosse um reflexo da mente do diretor e nada além disso. Pode parecer interessante conhecer os bastidores de um filme dele, especialmente do que atingiu mais sucesso em sua extensa carreira, mas a verdade é que o filme não consegue atingir um genuíno interesse na plateia. 
Em parte, a culpa reside um pouco no elenco do filme. Helen Mirren na pele de Alma Reville, a esposa de Hitchcock, é mais um mistério do que um personagem que desperte interesse. Difícil saber o que a motiva. E Anthony Hopkins interpretando o famoso diretor que dá o nome do filme me faz sentir uma coisa que não lembro de ter sentido em qualquer outro filme com o ator: uma incapacidade de criar um personagem com profundidade. Talvez seja a maquiagem pesada que ele usa para ficar fisicamente parecido com o personagem que o faça ficar à vontade, ou talvez seja um excesso de preciosismo de querer retratar o diretor como ele aparecia e nada além disso. Seja como for, o resultado final não consegue realmente se mostrar acertado.
O filme foca no período após o lançamento de Trama internacional. Apesar do sucesso do filme, o diretor ficou obcecado pelas críticas de que estaria envelhecendo e perdendo a mão, ao invés de ouvir a grande maioria que apenas celebrava mais um de seus grandes filmes. Isso o levou a fazer algo totalmente diferente dos filmes que tinha feito antes. E é por isso que mesmo quando todos lhe diziam o contrário (agente, esposa e o dono do estúdio), ele insistiu em realizar Psicose.
O que temos aqui não é exatamente uma espécie de making of ou algo como "por trás dos bastidores", mas sim uma história que mostra a relação do diretor com sua esposa com quem ficou casado por cinquenta anos. O que se mostra um verdadeiro desapontamento (a história, não o casamento). Acredito que a maioria das pessoas que vão, ou foram, assistir esse filme, gostariam de saber mais detalhes da sua produção, assim como eu gostaria de  saber um pouco mais. Há ainda uma subtrama entre Alma e Cook (Danny Huston) escrevendo um roteiro que não acrescenta muita coisa.
Está passando na HBO um filme chamado A garota que mostra o diretor durante a filmagem de Os pássaros. No telefilme, ele se apresenta como um patético predador sexual diferente do que vemos aqui. Então a resposta que não vai ser respondida é quem realmente foi Alfred Hitchcock. O filme tem alguns bons momentos, mas a verdade é que está aquém do que esperava. Por se tratar de um diretor com tantas obras-primas, o mínimo que poderiam fazer é um bom filme sobre ele. Se não, talvez seja melhor deixar sua filmografia falar como sua história e deixar sua vida pessoal em paz.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

HITCHCOCK TRUFFAUT 37: A TORTURA DO SILÊNCIO - I CONFESS (1953)


NOTA: 7.
- Eu abusei da sua bondade. Você que me deu uma casa e uma esposa. Até mesmo amizade. Uma coisa tão maravilhosa para um refugiado, um alemão, um homem sem lar.

Um filme menos celebrado do diretor, mas que toca em uma questão interessante da igreja católica. Um padre ouve a confissão de um homem, Otto, que trabalha na sua paróquia. Otto homem lhe diz que estava tentando roubar um dinheiro de um advogado, quando flagrado acabou cometendo assassinato. Coincidentemente, o advogado estava chantageando uma mulher que teve um caso com o padre, e este sem poder dizer quem é o real assassino, pois foi uma confissão, acaba sendo acusado pelo crime.
O diretor diz que lhe faltou humor nesse filme. Não que isso quer dizer que faltem cenas engraçadas no filme, mas ele sempre procurou tratar de assuntos sérios com uma certa ironia. E talvez pela sua criação em um colégio jesuíta, ele não tenha conseguido encontrar uma forma de deixar o filme menos tenso. Até mesmo seu protagonista, Montgomery Clift, leva um semblante sério durante todo o filme. Não que isso seja ruim, o ator se destaca no filme com uma ótima atuação, mas apenas talvez indique a forma como o diretor tratou o filme.
Um dos problemas do filme e que incomodaram muitos críticos na época, é o fato de sabermos desde o início quem é o assassino e que o padre sabe sua identidade logo na primeira cena. Por mais que a plateia saiba que o padre não pode trair o segredo que ouviu no confessionário, se espera que ele faça alguma coisa para sair daquela situação. Mas de forma alguma, o roteiro dá qualquer alternativa para que ele saia daquela situação. O que ele faz durante todo o filme é aceitar que vai para a prisão pelo crime de outra pessoa. Situação atípica em um filme de Hitchcock.
Além disso, Hitchcock toca em outro assunto. Ele demonstra que certos personagens não servem para serem filmados. Sempre há pessoas que você conhece que quando conta para alguém, esse alguém não acredita que possa existir uma pessoa assim. Católicos sabem que o padre deve ficar calado, mas pessoas de outras religiões não aceitam esse conceito. O personagem do padre, é um personagem que não traz credibilidade para uma parte da plateia, portanto ele considera que houve um erro na concepção do filme.
Independente se a plateia pense que o padre deveria ou não contar, o fato é que o filme arrasta essa questão por muito tempo. Tanto tempo, que em determinado momento o filme toma um outro caminho e se prende por uma boa quantidade de tempo para contar a história de amor entre o padre e a mulher chantageada. História secundária que pouco acrescenta ao filme.
Não é um problema de ser um filme ruim, apenas se esperava mais de um filme do diretor que nessa época já gozava de certa fama. Ainda assim temos belas cenas, onde ele mostra sua habilidade em contar mais que os diálogos conseguem. Como na cena quando a mulher do assassino está servindo café para os padres e tenta descobrir as intenções de Logan. Eles não trocam uma palavra, mas sabemos exatamente a tensão que há na mulher. Cenas que só encontramos em um filme de Alfred Hitchcock.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

HITCHCOCK TRUFFAUT 36: PACTO SINISTRO - STRANGERS ON A TRAIN (1951)

Para ler o que já saiu de Hitchcock Truffaut, clique aqui. 



NOTA: 9.
- Minha teoria é que qualquer pessoa é um assassino em potencial.

Como já tinha acontecido anteriormente, o diretor Alfred Hitchcock novamente se encontrava em uma situação delicada em sua carreira. Ele vinha de dois fracassos seguidos e precisava de um sucesso para se reerguer. E novamente, ele o faz de maneira espetacular. Não que este seja um dos melhores filmes do diretor, mas é impressionante o que ele é capaz de fazer mesmo que não tenha um grande roteiro para filmar.
Guy Haines (Fraley Granger) é um tenista famoso que está viajando de trem e encontra um estranho homem, Bruno Antony (Robert Walker) que parece saber tudo da sua vida. Tanto sabe, que diz a Haines sobre o fato de não poder casar com a mulher que ama porque ainda está casado com Miriam, e assim lhe propõe uma troca de assassinatos: Bruno mataria a mulher de Haines para que ele possa casar novamente e em troca Haines faria o mesmo com o pai de Bruno.
Essa é a ideia de um plano perfeito de assassinato para Bruno, pois seriam dois estranhos sem ligação aparente que cometeriam os crimes ao passo que o principal beneficiado teria um álibi. Claro que Haines acha que tudo não passa de uma brincadeira até chegar em casa um dia e descobrir que sua ex-mulher está morta. Agora Bruno espera que ele cumpra a sua parte do trato ou vai arruinar sua vida em retaliação.
Hitchcock sempre causava medos porque dizia que usava os seus próprios. Por isso em casos recorrentes ele usava o mocinho que era acusado de um crime que não cometeu. Era um medo que o próprio diretor tinha. E é nessa parte do filme também, que o diretor fala de outra característica que o deixou famoso: de somente filmar o que usaria na edição. "Porque eu só rodava pedacinhos de filmes, e mais nada. Era impossível alguém juntá-los sem a minha presença e era impossível fazer outra montagem diferente da que tinha na cabeça ao filmar."
Uma das poucas fraquezas do filme, é a falta de solidez dos personagens. O diretor ainda vai além e fala da falta de solidez dos atores, mas vendo o filme não acredito ser exatamente esse o caso. Acho que eles fazem um bom papel, tanto o mocinho que está preso em uma situação desesperadora quanto o quase insano e intrometido que fica exacerbando a situação. Talvez apenas a mocinha esteja um pouco fora do tom, mas o que falta aqui são diálogos que pudessem dar mais profundidade e os caracterizassem melhor.
Longe de ser um estudo de personagens ou de psicologia, o filme é um suspense de primeira linha com cenas memoráveis e que são hoje muito copiadas, como quando Haines olha para a plateia e todos acompanham uma partida de tênis balançando a cabeça de um lado para o outro, menos Bruno que fica estático olhando atentamente para Haines. Além do climático fim no carrossel, que ainda fique evidente o uso de projeção, não deixa de impressionar. Truffaut diz que se outro diretor tivesse filmado o roteiro, teríamos um filme ruim. Mas este é um filme de Hitchcock, que mesmo com um roteiro deficiente conseguiu fazer um ótimo filme.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

HITCHCOCK TRUFFAUT 35: PAVOR NOS BASTIDORES - STAGE FRIGHT (1950)

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NOTA: 7.
- Eu nunca espero ser apreciado. Sua mãe me curou desse problema.

Novamente, Hitchcock volta para um filme que constitui em um whodunit, como ele costumava chamar, mas havia alguns motivos para que ele fizesse isso. Um motivo é que o livro havia saído há pouco e alguns críticos escreveram que daria um bom filme de Hitchcock, fato que ele lamenta ter acreditado. Outro é que teve uma relação conturbada de trabalho com Ingrid Bergmen durante as filmagens do seu filme anterior, e procurava alguma coisa mais leve para o próximo trabalho. O último motivo, é que se interessou em fazer uma história sobre o teatro.
O filme foi um novo fracasso na carreira do diretor, que novamente se encontrava em uma situação delicada ao acumular dois fracassos seguidos. Dessa vez o filme não chega a ser ruim como foi na ocasião anterior, mas realmente parece um filme um pouco abaixo da média para ele. Hitchcock parece mais interessado nas cenas individuais do que no filme como um todo. Há vários momentos interessantes, mas falta um pouco de coesão na edição final ou mesmo um tempo menor de filme.
O mundo do teatro londrino é realmente um fascinante cenário onde uma estudante de atuação se disfarça de ajudante de uma grande atriz, Charlotte Inwood (Marlene Dietrich), para descobrir a verdade sobre a morte do marido dela. A intenção dela, é ajudar seu amigo que tinha um caso com a famosa atriz que está sendo procurado pelo assassinato. Normalmente, esse tipo de argumento causaria uma perseguição, mas aqui a história não chega realmente a decolar.
Depois do lançamento do filme, Hitchcock foi duramente criticado por começar o filme com um flashback que depois acaba se revelando uma mentira. Não acredito que hoje esse tipo de artifício causaria qualquer tipo alvoroço, pior já foi feito com resultados menos interessantes. Funcionando ou não, pelo menos o diretor tentou um artifício diferente.
O que ninguém pode negar é que este filme tem um dos melhores elencos que o diretor já teve em um filme seu. Repleto de talentos ingleses, brilha mais ainda a estrela alemã de Marlene Dietrich. Mesmo com menos tempo em tela que Jane Wyman, a atriz não precisa de muito para mostrar porque é uma das grandes estrelas do cinema. Como Hitchcock diz na entrevista: "Quanto mais perfeito o vilão, mais perfeito será o filme". E a vilã de Dietrich é fantástica mesmo em um filme mediano.
O grande problema mesmo do filme é a falta de tensão que costumamos ver nos filmes do diretor. Ele mesmo reconheceu que percebeu isso durante as filmagens, mas não havia mais nada que pudesse fazer. Nenhum dos personagens parece estar em perigo em nenhum momento, o que não faz com que acompanhá-los se torne muito interessante. Fica mais de curiosidade do que por qualidade.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

HITCHCOCK TRUFFAUT 34: SOB O SIGNO DE CAPRICÓRNIO - UNDER CAPRICORN (1949)

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NOTA: 5.
- Você é um ex-condenado. Sabe qual será sua pena se for acusado de novo?

Este é outro filme único na carreira do diretor, e mais um do qual ele se arrependeu de ter realizado. O motivo principal, é que ele aceitou fazer este filme porque com essa história isso lhe permitiria trabalhar com Ingrid Bergman. A atriz na época era a maior estrela de Hollywood (já havia até feito sucessos como Casablanca), e a vaidade falou mais alto. Ele queria poder dizer que todos os estúdios queriam Bergman, mas ela havia escolhido o seu filme independente. Uma coisa que considerava uma vitória contra a indústria, mas que depois reconheceu ser um ato infantil.
Outro erro que ele reconhece, é uma escolha errada de seus roteiristas. Um era um amigo pessoal do diretor, mas profissionalmente inexperiente. Outro escrevia peças de teatro, mas tinha um problema: escrevia peças que tinham um ótimo primeiro e segundo ato, mas que nunca terminavam bem. E esse é um dos problemas do filme. Não que ele se desenvolva de maneira excepcional, mas com certeza os quinze minutos finais do filme se arrastam para tentar elucidar a trama.
O filme se passa em 1831, na Austrália, onde um ex-condenado, Flusky (Joseph Cotten), consegue sua riqueza mas não consegue ser bem visto pela sociedade. Ele é casado com Lady Henrietta (Ingrid Bergman), uma mulher com problemas de alcoolismo. O primo dela chega e se aproxima do casal, e juntos eles acabam descobrindo um estranho plano da governanta de envenenar Henrietta por amor à Flusky, e que este cumpriu pena por conta de um crime que Henrietta cometeu.
O filme apresenta alguns elementos que são característicos do diretor. A governanta que tem o tom misterioso já havia aparecido em Rebecca, o envenenamento progressivo é outra coisa que já havia sido em Interlúdio (com a própria Bergman repetindo o ato) e o peso do passado que se repete em alguns outros filmes. Mas nada que na verdade justifique o uso desses elementos. O mestre do suspense usa os elementos que conhece tão bem em um filme que nada tem de suspense.
Na época, alguns admiradores do diretor chegaram a declarar, no tempo do lançamento, este como o melhor filme de Hitchcock. Eu não vi nenhuma qualidade que justificasse esse título. O filme é um romance de época baseado em um livro que era uma comédia. Aqui nada há de engraçado. Fica apenas um longo e muito elaborado ensaio sobre os tormentos da consciência e do amor na vida das pessoas. Fica a beleza de um filme rodado em belas cores por Hitchcock, mas sem nenhum conteúdo interessante.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

HITCHCOCK TRUFFAUT 33: FESTIM DIABÓLICO - ROPE (1948)

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NOTA: 7.
- Ninguém comete um assassinato só pela experimentação de se cometer um assassinato. Ninguém exceto a gente.

Chegamos a uma nova etapa na carreira de Hitchcock. É a partir deste filme que ele se torna o produtor de seus próprios filmes. Talvez esse tenha sido o motivo que o levou a fazer um projeto que o próprio diretor considerava uma cilada. O filme era uma adaptação de um peça de teatro onde o tempo de duração era o mesmo que a ação encenada. Para conseguir o mesmo efeito no filme, o diretor resolveu fazer deste filme um longo plano-sequência. Para quem não sabe o que é um plano-sequência, trata-se de um plano sem corte, contínuo. Em película, é impossível se fazer um filme inteiro sem cortes pois o rolo de filme tem pouca duração (cerca de 10 minutos). Por isso durante o filme, a câmera eventualmente passava pelas costas de alguém ou algum móvel, isso permitia que a troca do rolo fosse quase imperceptível.
Nesse aspecto só tenho a admirar a habilidade dele. Claro que um filme desse tipo ia totalmente contra o tipo de filme que ele costuma fazer, que sempre prezava pela fragmentação do filme e o fazia com maestria invejável. Ainda assim, é incrível que ainda assim ele consiga mover a câmera de modo a contar a história com a mesma intensidade com que costumava contar todos seus outros filmes, além disso o controle da luz que faz o tempo passar de forma quase despercebida. Considerando que era seu primeiro filme colorido, tais méritos se tornam ainda maiores.
A história do filme é sobre uma dupla de jovens estudantes muito inteligentes que matam um colega de turma só pela volúpia do ato em si. E isso a pouco minutos do início de uma festa onde convidam os pais do rapaz, a ex-noiva de um deles e um professor, interpretado por James Stewart, de quem eles acham que vão conseguir admiração pelo crime que cometeram. A dupla, ainda que não tivesse sido falado abertamente (provavelmente pela época em que foi filmado), eram homossexuais que agem quase como um casal.
Apesar de admirar a habilidade do diretor, não posso esconder que o filme me decepciona um pouco. É realmente um trabalho fantástico de câmera, iluminação e movimentação de atores, mas não passa nem um terço do mistério que outros produtos dele. Justamente ele que sempre procurou disfarçar quando adaptava uma peça, aqui parece abraçar o tom teatral. Temos pouca coisa aqui para diferenciar o filme de uma peça teatral, o que diminui a força do filme por se tratar de um filme de Hitchcock.
O filme foi um sucesso comercial, o que deve ter sido ótimo para sua carreira, mas artisticamente ficou aquém do que se espera de um filme com o seu selo. Ainda que tente passar suspense, o filme acaba mais sendo sobre um longo, e entediante, coquetel do que sobre um crime ou descobrir se os culpados serão descobertos ou não. Infelizmente, no início de sua carreira de produtor, Hitchcock vai acabar acumulando uma sequência de filmes que não se orgulha muito.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

HITCHCOCK TRUFFAUT 32: AGONIA DE AMOR - THE PARADINE CASE (1947)

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NOTA: 7.
- Os melhores homens sempre terminam com as piores mulheres.

Em mais um filme do diretor sob a produção do lendário produtor David O. Selznick, Hitchcock pela primeira vez tem a tarefa de colocar nas telas um roteiro escrito pelo próprio produtor. Talvez não seja por acaso que é um dos filmes dele com uma história mais mal contada. 
É um drama de tribunal. É também um drama romântico. Se eu disser que é também uma sátira social dos costumes da alta sociedade de Londres, eu também não estaria errado. Assim como também retrata uma crise conjugal entre o advogado e sua esposa. Talvez por mirar em tantos alvos ao mesmo tempo, é que o filme não consiga saber exatamente que direção deve levar a plateia.
Começamos com a prisão da Sra. Paradine, acusada de ser responsável pela morte do esposo cego que foi vítima de envenenamento. O que geralmente acontece é a prisão de delinquentes que parecem pertencer ao lugar. Aqui, temos uma mulher de classe que fica realmente deslocada lá. Ela chega toda arrumada e com seu cabelo penteado e a guarda desmancha o penteado para verificar se não há nada escondido nele.
Ela vai ser defendida por Anthony Keane (Gregory Peck), um ótimo advogado que acaba se apaixonando pela acusada. Com isso, ele acaba se entregando demais ao caso para soltar a mulher por quem se apaixonou e acaba negligenciando até mesmo sua própria esposa. Esposa que acaba descobrindo a paixão do marido mas mesmo assim insiste que ele vença o caso.
E são esses detalhes que são interessantes no filme. Não se trata de um grande mistério, apesar de não ser desprovido dele, e nem sobre um crime. Apesar do diretor admitir que não entendeu muito bem como o crime teria acontecido e por isso não o filmou, o importante é perceber que não é esse seu alvo. Ele quer mostrar as pessoas. Não somente a acusada, seu defensor ou a esposa, mas também o juiz (interpretado pelo ótimo Charles Laughton) e várias mulheres que acompanham o julgamento.
E ainda que a história não seja sobre um grande mistério ou um crime, e que o roteiro não ajude muito a desenvolver melhor a trama, Hitchcock consegue tirar mais tensão do que a maioria dos diretores conseguem em filme de tribunal. Grande parte por conta da grande habilidade da câmera, que parece cúmplice do julgamento e nos deixa a par de tudo que acontece.
Apesar de Peck não ter sido escolha do diretor, ele está melhor que na parceria anterior com Hitchcock. Claro que realmente não seria a melhor escolha (Hitchcock diz que gostaria de ter filmado com Laurence Olivier), mas não atrapalha o filme. que marca também o final da parceria com Selznick.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

HITCHCOCK TRUFFAUT 31: INTERLÚDIO - NOTORIOUS (1946)

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NOTA: 100.
- Um homem não diz uma mulher o que fazer. Ela diz a si mesma.

Como Truffaut ressalta, este filme é o que mais se aproxima de toda a essência do que é um filme hitchcockiano. A quintessência de Hitchcock. Pelo menos de todos os filmes preto e branco. E isso porque o filme basicamente se resume a um único MacGuffin: uma amostra de urânio escondido dentro de uma garrafa de vinho. Esse é um dos simples que o diretor já usou, e talvez por isso seja o mais eficaz. Com certeza o melhor até agora. Na verdade essa é a genialidade do filme: se aproximar da simplicidade, e o faz com tamanha competência que o filme se torna algo além do que se podia esperar. Se torna genial.
Para convencer os produtores de que o MacGuffin funcionaria, o diretor teve trabalho para vender a ideia do filme. Ideia essa que surgiu em 1944, um ano antes das bombas de Hiroshima e Nagasaki explodirem. Inclusive, ele relata que a pesquisa que fez pro filme sobre a bomba atômica o fez ser vigiado pelo FBI. Mesmo depois de explicar ao produtor o que era um MacGuffin e a pouca importância que se deve dar a ele, o produtor resolveu se livrar do filme e os atores envolvidos. Erro que provavelmente o fez se arrepender depois de ver o sucesso do filme.
Junto a Casablanca, esse filme é que garante imortalidade a Ingrid Bergman. Ela é Alicia Huberman, mulher com fama notória (o que dá o título original do filme) que é convidada pelo governo americano a espionar nazistas que estão radicados no Rio de Janeiro. Quem a convence a realizar o trabalho é Devlin (Cary Grant), agente por quem ela se apaixona e que acaba a jogando nos braços de outro homem para que ela possa se infiltrar. No final, se trata apenas de uma história de amor entre um homem e uma mulher que acabam não ficando juntos por desencontros e mal entendidos.
Aqui acontece uma coisa interessante. Ao passo que vemos que ela está realmente apaixonada por ele, nunca temos certeza se ele a ama. Ele ainda a joga nos braços de outro homem, Sebastian (Claude Rains, outro que apesar de coadjuvante também se tornou imortal no cinema). Ele é realmente apaixonado por ela e acabamos criando uma certa empatia por ele. E ainda marca ainda mais sua presença quando se mostra um vilão que não puxa uma arma, mas sim se mostra calculado para realizar seus atos. Esse é um personagem realmente mau.
E quanta ironia: Devlin é mais alto e bonito que o inseguro, ciumento e dominado pela mãe Sebastian. Ainda assim, apenas uma vez vemos Sebastian desafiar sua mãe, e ele faz isso em prol de sua amada. Devlin quase nada em favor dela.
E para terminar, um final sensacional. Mesmo o diretor, que anteriormente caiu na armadilha de terminar seus filmes com perseguições ou grandes de cenas. Aqui, tal qual o MacGuffin, ele extrai o suspense de algo simples. Não há brigas, nem perseguições, explosões ou qualquer coisa do gênero. A cena é simples e guarda todo o suspense do filme. Ela é calma e delicada. E talvez por isso seja o filme preferido de Truffaut. Realmente é genial e finalmente começamos a nos aproximar da genialidade que fez o diretor ser quem é.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

HITCHCOCK TRUFFAUT 29: LIFEBOAT - UM BARCO E NOVE DESTINOS (1944)

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NOTA: 8.
- Morrer juntos é ainda mais pessoal do que viver juntos.

Agora Hitchcock passa para um verdadeiro desafio. Saem tramas elaboradas e variados cenários para um filme todo passado dentro de um bote salva-vidas. Nove pessoas sobreviventes de um navio vítima de um  torpedo, logo na primeira cena, ficam dentro do bote tentando sobreviver até o resgate. Ele aproveita para testar uma teoria: analisando um filme psicológico, cerca de 80% era dedicado a planos fechados, o que era o que acontecia ao se filme dentro de um pequeno barco. A técnica usada seria uma espécie de precursora da TV.
Houve ainda um outro motivo para gravar o filme. O mundo ainda se encontrava em guerra, e havia duas forças presentes: democracia e nazismo. As democracias estavam em plena desordem enquanto os alemães, certos ou não, sabiam exatamente onde queriam chegar. A mensagem que ele queria passar é que as democracias deveriam se unir contra o inimigo comum.
Depois que o navio afunda, juntam-se os nove sobreviventes, sendo um deles um alemão que finge ser um mero marinheiro do submarino que lançou o torpedo e que depois vamos descobrir que é na verdade o capitão. Pela sua patente, ele acaba se mostrando o mais competente para liderar o barco em direção à Bermudas. Esse fato foi o que na época mais gerou críticas contra o filme, pois como poderia um nazista ser o melhor para liderar? Mas justamente essa ideia ia de encontro com o que ele queria passar. Aquele homem era o único que sabia o que fazer.
Como todos sabem, o diretor é famoso pelas pontas que faz em todos os seus filmes. Como descrevi anteriormente, começou pela necessidade de preencher espaço na tela e depois acabou virando uma gag da qual ele não conseguiu se livrar. Geralmente fazia isso como um transeunte, coisa que seria impossível num filme em alto mar. Para resolver esse problema, ele acabou imortalizando também uma dieta que estava fazendo e que o fez perder 50 quilos. Ele aparece em uma propaganda em um jornal como modelo de um produto para emagrecimento.
Não apenas pelo fato de se passar unicamente dentro de um barco, o próprio clima também difere este filme do resto de suas obras. Não tratamos de suspense aqui, mas sim de um drama como ele não havia feito antes. O barco acaba se tornando uma espécie de "microcosmos" do mundo naqueles tempos de guerra. Temos fascistas, comunistas e democratas e conflitos que acabam por resolver o destino de todo o barco. Era claramente uma propaganda à favor dos aliados e ele se orgulha disso. Se não tivesse feito nada, se recriminaria depois. Isso por si só já é de se elevar um pouco a obra. São grandes artistas que em tempos difíceis se levantam em prol da coisa certa. 

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

HITCHCOCK TRUFFAUT 28: A SOMBRA DE UMA DÚVIDA - SHADOW OF DOUBT (1943)

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NOTA: 9.
- Pra quê olhar para trás? Ou para a frente? O que importa é o hoje. Essa é a minha filosofia. Hoje.

Este é o filme que ficou famoso como o predileto de Hitchcock por conta de certa declaração que ele fez uma vez. Truffaut ainda diz que se todos os outros filmes do diretor desaparecessem, este traria uma ideia errada do que ele chama de "Hitchcock Touch". A verdade, é que o que ele realmente quis dizer na declaração, é que este é o filme que agradaria a todos que reclamam que o diretor não é verossímil. Para essas pessoas, talvez essa seja realmente o seu melhor filme.
No filme, Tio Charlie (Joseph Cotten) está sendo perseguido por dois homens. Ele resolve então se refugiar em Santa Rosa na casa de sua irmã que é casada com um banqueiro e tem três filhos, sendo a filha mais velha Charlie (Teresa Wright). Todos gostam muito dele e ele parece ser uma ótima companhia para todos. Pouco a pouco, a coisa não se mostra um mar de rosas como ele faz parecer. Os dois homens o acham em Santa Rosa e ele parece estar mesmo escondendo um segredo.
Grande parte do poder do filme, vem mesmo da habilidade do diretor. Com muita maestria, ele planta a desconfiança em cima do personagem principal. E melhor ainda: dessa vez não tem uma grande estrela como protagonista. Não pensem que isso de alguma forma desqualifica o filme, na verdade apenas intensifica o suspense. Agora, realmente a platéia fica em dúvida se o personagem pode ser o culpado ou não.
Ele faz uma reclamação. Na Inglaterra, ele sempre conseguia se cercar dos melhores profissionais para realizar seus filmes. Em Hollywood a coisa muda um pouco e parece que ninguém leva o diretor muito à sério, e ele acaba tendo que se virar com as pessoas que aceitam trabalhar com ele, não com quem ele realmente chama. Apesar disso, ele conseguiu um roteirista que lhe agradou bastante e que na verdade fez um bom trabalho montando essa história.
Ainda não se trata de um dos filmes que mostram o quão especial era o diretor. Apesar de, como ele mesmo diz, agradar as pessoas que buscam o verossímil nas telas, não vai agradar plenamente os grandes fãs de um verdadeiro filme de Hitchcock. É um bom suspense, mas é justamente o toque do inverossímil que o deixa acima do resto, ou pelo menos de boa parte. A dúvida pode pairar em cima do protagonista tal qual acontece com Norman Bates, mas o resultado não é o mesmo.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

HITCHCOCK TRUFFAUT 27: SABOTEUR - SABOTADOR (1942)

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NOTA: 6.
- Em quem de nós você acha que a polícia vai acreditar?

A exemplo do que já havia feito na Inglaterra, Hitchcock realiza um filme que fala sobre terrorismo. E com esse filme, ele entra na mesma linha que 39 degraus, Trama internacional e Correspondente estrangeiro. A história é padrão de grande parte dos filmes de Hitchcok, homem que é acusado de um crime que não cometeu foge para provar sua inocência, encontra uma garota que não acredita nele mas depois acaba acreditando e acaba por ajudá-lo.
Acontece, porém, uma coisa que não acontece nos outros filme citados: ele não funciona como os outros. Ele mesmo identifica um dos grandes problemas de seu filme, que são os atores protagonistas. O diretor diz que foi emprestado por Selznick a um produtor independente, tanto que o filme foi distribuído pela Universal. A atriz, segundo suas próprias palavras: "Não era uma mulher para um filme de Hitchcock.", além disso, para filmes desse tipo, o ideal é ter um astro para que o público dê maior importância aos perigos que ele está correndo. Para completar, ele não conseguiu um vilão que pudesse fazer um contraponto ideal aos mocinhos, e acabou tendo que ficar com um "vilão tradicional", Otto Kruger.
Há uma coisa, porém, a ser destacada. O final do filme na estátua da liberdade é brilhante e leva a marca do diretor em cada frame. Ela conta com o mocinho e outro vilão interpretado por Norman Lloyd (muito bem em seu papel) e termina com o vilão pendurado prestes a cair. O diretor diz que a cena seria muito mais forte se ao invés de ser o vilão pendurado, o perigo estivesse em cima do herói. Mas o que é realmente interessante é que mesmo assim, a cena causa grande impacto. A única coisa que senti falta, foi uma coisa que Hitchcock dominaria algum tempo mais tarde: a importância da trilha sonora. Principalmente depois de formar a parceria com Bernard Herrmann. Fosse pontuada pela trilha, essa cena poderia ser inesquecível.
Qualquer semelhança com Intriga internacional, um filme mais conhecido do diretor, não é mera coincidência. Tanto que ele próprio classifica Intriga como uma refilmagem deste filme, e até mesmo as cenas finais são muito semelhantes. A diferença é apenas que a "refilmagem" é muito superior e não apresenta nenhum dos problemas citados aqui, principalmente em termos de elenco (que conta com Cary Grant e Eva Marie-Saint).
A verdade é que o diretor não consegue aparar as pontas do roteiro. Muita coisa acontece, e contrariando o que ele mesmo procurava pregar, nem tudo é interessante. Ou emocionante. Ele acredita que talvez tenha coberto um território vasto demais, Truffaut diz que o problema é a mocinha e saber quando colocá-la e em perigo ou não. Seja lá se o problema são todos esses ou não, o problema é que o filme nunca chega a decolar.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

HITCHCOCK TRUFFAUT 26: SUSPEITA - SUSPICION (1941)


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NOTA: 7.
- Eu sempre penso nos assassinos como meus heróis.

O diretor considera este seu segundo filme "inglês" em Hollywood: "atores ingleses, ambientação inglesa, romance inglês". No livro, a mocinha da história descobre que casou com um assassino e deixa que ele a mate. Pelo amor que tem por ele.
Na época do lançamento, Hitchcock foi amplamente criticado por ter modificado complemente a trama original do livro. Sendo assim, na verdade a mocinha descobre que é um gastador mentiroso que não possui dinheiro algum. Depois, acaba por confundi-lo por um assassino e imagina que ele pretende matá-la. Apesar de aparecer nos créditos que é uma adaptação, isso chega a ser um tanto quanto injusto, já que claramente se trata de uma história totalmente diferente.
Para os que não lembram, quando postei O inquilino sinistro, escrevi que Hitchcock reclamava de trabalhar com um ator famoso, já que eliminava a possibilidade de que ele pudesse ser um assassino. Aqui, com Cary Grant, acontece a mesma coisa. O final que ele queria, mostrava a mocinha escrevendo uma carta para a mãe dizendo que não queria viver e que ele iria acabar com sua vida. Ele lhe traz um copo de leite envenenado e ela lhe pede que ele envie a carta pelo correio O filme terminaria com Grant postando a carta em uma caixa de correio.
Apesar de não ser um dos seus melhores filmes, devemos reconhecer a genialidade do diretor para realizar este aqui. Ele é capaz de dar todas as pistas contrárias do que é realmente verdade para enganar a plateia. Apesar de sabermos que Grant não pode ser um verdadeiro assassino, é interessante vê-lo andando ameaçador como se ele fosse mesmo capaz de cometer qualquer crime. É somente no final que vamos descobrir do que ele é realmente capaz.
Grande parte deve também ser creditada à atuação de Grant. Ele, que assim como a governanta de Rebecca nunca aparece entrando em uma cena, simplesmente parece se materializar na tela, consegue entregar sutilmente dois personagens diferentes e contraditórios que são, na verdade, a mesma pessoa. Ele simplesmente interpreta com maestria e merecia um Oscar (se bem que aquele ano foi muito disputado), que acabou sendo vencido apenas por Joan Fontaine.
Um produtor foi ver a montagem do filme, e acabou pedindo para retirarem toas as cenas em que Grant aparecia com um jeito misterioso e suspeito. O corte ficou com 55 minutos e parecendo um tanto quanto ridículo. Por fim, acabaram colocando todas as cenas de volta. 
Deixa no ar um tom meio que de decepção. O próprio diretor acabou ficando decepcionado com o resultado final do filme. Não é nem o melhor, nem o pior.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

HITCHCOCK TRUFFAUT 25: UM CASAL DO BARULHO - MR. & MRS. SMITH (1941)

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NOTA: 4.
- Se você pudesse fazer tudo de novo, ainda assim casaria comigo?

O próximo filme da lista do diretor é totalmente atípico se comparado com o resto da sua filmografia. Pela primeira vez, e única, Hitchcock faz uma comédia. Isso aconteceu por conta da sua amizade com Carole Lombard, que lhe pediu para dirigir um filme com ela. Ele diz que não conseguiu entender como os personagens agiam, então simplesmente filmou as cenas como eram descritas no roteiro. Em defesa do diretor, posso dizer que não faço ideia do porque qualquer pessoa agiria do modo que eles agem.
Ao contrário do filme dirigido por Doug Liman e estrelado por Brad Pitt e Angelina Jolie (nos títulos originais, ambos os filmes se chamam Mr. & Mrs. Smith, apesar do filme de Hitchcock já mostrar que os péssimos títulos nacionais vem de muito tempo), não há assassinos, espiões ou qualquer profissão do gênero no filme de Hitchcock, apesar de ambos tratarem de um casal em crise. Aqui, o casal é interpretado por Carole Lombard, a amiga de Hitchcock, e Robert Montegomery.
Ann e David são casados e moram juntos há 3 anos. Mas por conta de uma tecnicalidade jurídica, o casamento dos dois deixa de ser válido. Ao invés de tentarem resolver esse problema, eles acabam tendo uma discussão e acabam se separando. Ele, que dizia que se pudesse fazer tudo de novo permaneceria solteiro, quer casar novamente com ela. Ela, que parecia irremediavelmente apaixonada, decide procurar outra pessoa para casar, incluindo o sócio e melhor amigo de David.
O diretor ainda tenta tirar alguma coisa de um roteiro óbvio, pouco inspirado e que só apresenta personagens desinteressantes. Um homem obcecado a passar o filme inteiro se humilhando para ter sua mulher de volta. A mulher que faz de tudo para arrumar um marido que não seja o anterior mesmo que não tenha motivos aparentes para reatar com ele. Um amigo e sócio que não tem pudores de tentar roubar a mulher alheia. Não há alguém por quem se torcer neste filme.
Para piorar a situação, se trata de uma comédia que irá tirar no máximo algumas risadas amarelas. Me impressiona que apesar de parecer estar amadurecendo como diretor, ele ainda era capaz de escolher mal alguns de seu filmes. Pouca coisa interessante de se falar sobre este.
Nessa parte há um detalhe interessante em que ele explica uma de suas frases que foi mal interpretada. Certa vez, ainda no cinema mudo, ele comparou atores com gado. Uma frase que lhe perseguiu durante toda a sua vida e que lhe valeu a fama de não gostar de atores. Ele sequer lembra qual o contexto em que disse a frase, mas explica que queria apenas falar mal dos atores que se dedicavam muito ao teatro e não dava atenção nenhuma ao cinema. Eram esses atores que o incomodavam. Como brincadeira, Carole colocou 3 bois com placas onde escreveu os nomes do elenco principal pendurado no pescoço. E ele achou genial a tirada.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

HITCHCOCK TRUFFAUT 24: CORRESPONDENTE ESTRANGEIRO -FOREIGN CORRESPONDENT (1940)

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NOTA: 9.
- Correspondentes estrangeiros. Eu podia ter mais notícias da Europa olhando uma bola de cristal.

É muito fácil em Hollywood, observar a "categoria" dos filmes. Basicamente, há os diretores de filmes das séries A, B e C. No sentido da evolução, parece ser difícil um diretor conseguir subir de uma série para outra, a menos que consiga um sucesso estrondoso. Por isso parece meio estranho, mas Hitchcock depois de realizar um filme A, faz de seu filme seguinte um filme B. 
Ele explica o porquê. Ao contrário do que acontece na Europa, os thrillers eram mal vistos nos EUA. Até mesmo os livros são considerados de segunda classe. A ideia do diretor, era fazer o filme com Gary Cooper, mas por ser um filme de aventura o ator recusou o papel. Hitchcock ficava então obrigado a trabalhar com atores de segunda grandeza. Ele diz que anos mais tarde encontrou com Copper que lhe disse: "Eu me enganei, não foi?"
Depois de trabalhar com Selznick, ele se junta ao produtor Walter Wanger que tinha os direitos de um  livro chamada "Personal history", que deveria ter inspirado a história do filme. Como o diretor gosta de modificar a história dos livros até que lhe sirvam para fazer seus filmes, o que acontece é que nada sobrou da história original, e o roteiro acabou saindo uma história original.
A história é do correspondente internacional de um jornal, John Jones (Joel McCrea) que é enviado para a Europa pré-segunda guerra para investigar a possibilidade do início do conflito. Na Inglaterra, ele se encontra com um político que lhe diz saber segredos de uma certa aliança. Dias depois, ele assiste a suposta  morte do político que era na verdade apenas um plano para sequestrá-lo.
Ao contrário de outros filmes, o herói dessa vez não é falsamente acusado de crime algum, mas para cobrir a história ele se encontra bem no meio de toda a aventura. Seguindo atrás do político, ele é ajudado por uma jovem cujo pai é presidente de uma associação pacifista, mas que depois descobriremos que é na verdade uma autoridade nazista. Apaixonado, ele fica indeciso entre desvendar a verdade e não se indispor com a moça. Apesar de não ter os frandes nomes que gostaria, até que ele consegue atores que dão conta do recado, apesar de chamar McCrea de mole para o papel.
Só é realmente uma pena que seja um filme B, pois com um acabamento, e atuações, de primeira, poderia ser um filme muito melhor. Talvez um dos grandes do diretor, que ainda assim conseguiu fazer um filme muito interessante. Só é uma pena que seja difícil de encontrar uma cópia que esteja em ótimas condições.
O mais importante desta parte da entrevista é destacar a importância do MacGuffin nos filmes do diretor. Nas suas palavras:
"É um expediente, um truque, um recurso para uma situação problemática, é o que se chama gimmick... Todas as histórias de espionagem escritas nesse ambiente eram invariavelmente sobre roubo dos planos... MacGuffin é o nome que se dá a esse tipo de ação. Na prática, isso não tem a menor importância, e os lógicos estão errados em procurar a verdade no MacGuffin."

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

HITCHCOCK TRUFFAUT 23: REBECCA, A MULHER INESQUECÍVEL (1940)

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NOTA: 8.
- Felicidade é um assunto do qual eu não sei nada.

Finalmente Hitchcock chega a Hollywood para filmar Titanic com a produção do lendário produtor David O. Selznick (que no ano anterior havia produzido ...E o vento levou). Depois de uma despedida um pouco melancólica da sua fase inglesa, o diretor volta com força total para receber sua primeira indicação ao Oscar e tendo sob a sua batuta o grande Laurence Olivier. Dois ingleses que só trabalharam juntos em Hollywood.
Trata-se de um belo filme e uma produção primorosa, mas "não é um filme de Hitchcock". Mesmo para a época em que foi feito, a história do filme é bem antiquada e sem senso de humor. Ele diz que não se sentiu com seu primeiro filme nos EUA, porque apesar de tudo ainda se tratava de um filme inglês, já que a história, os atores e o diretor do filme são todos da Inglaterra. Ainda assim somente os americanos venceram Oscar por este filme (Melhor filme e fotografia). A boa notícia é que mesmo indo para a terra do Tio Sam, o diretor muda muito pouco no seu estilo de direção. Esse filme, apesar de mudar a essência do que o diretor costumava apresentar, é um filme muito similar a anteriores dele como A dama oculta ou Os 39 degraus.
A história é sobre uma moça sem nome (Joan Fontaine) que está acompanhando uma senhora rica em uma viagem. Durante essa viagem, ela conhece o rico Maxim de Winter (Laurence Olivier). Depois de um mal começo, os dois se aproximam até que Maxim a pede em casamento. Os dois vão para a misteriosa mansão dele em Manderley onde a moça terá grandes problemas em se adaptar a uma vida de luxo e riqueza. 
Dois fatos fazem com que a moça tenha dificuldade em se adaptar à sua nova: a constante "presença" da falecida primeira de Winter, a quem todos parecem ter grande admiração; e a estranha governanta da casa que parece saída de um filme de terror. Ela nunca parece andando, parece simplesmente surgir no lugar de uma hora para outra.
Apesar da grande qualidade técnica que o filme alcança, superior a todos da sua fase inglesa, o filme não chega realmente a empolgar. É muito antiquado em mostrar constantemente uma mulher que se deixa ser humilhada pelas contantes mudanças de humor do marido porque o ama tanto. Apesar de ainda chamar muita atenção, já que é realmente uma obra bela com produção caprichadíssima e ótima fotografia em preto e branco, não se trata de um dos grandes filmes do diretor. O que é bom observar, é que apesar de não ser uma das melhores obras do diretor, percebe-se que ele agora tem todos os meios técnicos para fazer seus filmes. 

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

HITCHCOCK TRUFFAUT 22: A ESTALAGEM MALDITA - JAMAICA INN (1939)

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NOTA: 5.
- Esse lugar, Jamaica Inn, tem uma péssima reputação. Tem coisas estranhas acontecendo por lá.

Talvez Hitchcock estivesse com a cabeça em Hollywood e seus próximos trabalhos na terra do Tio Sam quando realizou sua despedida inglesa, que foi produzida pela produtora do ator Charles Laughton. Talvez por isso esse filme tenha sido apenas um passatempo até começar sua nova fase. Um filme muito aquém do que o diretor vinha fazendo. Tanto é que o diretor se arrependeu de tê-lo feito, apesar do sucesso comercial inesperado.
O filme conta a história de uma órfã, interpretada por Maureen O'Hara, que vai morar com a tia cujo marido tem uma estalagem perto do porto. Trata-se de uma estalagem em que ocorrem todo o tipo de horrores, sendo o maior negócios deles fazerem que navios batam nas rochas para que eles possam saqueá-los. Nada acontece contra ele porque por trás de toda a organização está o juiz de paz da cidade.
Fosse outro diretor, o filme poderia não parecer tão discrepante. Mas como se trata do mestre, seus filmes devem ser julgados pelos padrões que ele próprio estabeleceu. Apesar de conter alguns elementos hitchcocktianos de suspense, esse filme não é lembrado (pelo menos por mim) como um filme com a marca característica do diretor. Pela primeira vez, o diretor se depara com um nome (Laughton) tão grande, ou maior, que o seu. E infelizmente sai perdendo.
Como Hitchcock bem observa: "Por isso que esse filme era uma empreitada insensata; normalmente, o juiz de paz só deveria aparecer no fim da aventura... era absurdo fazer esse filme com Charles Laughton no papel do juiz...".
Nessa parte, truffaut faz uma observação muito interessante, ainda que seja um pouco exagerada. Ele observa que toda essa fase inglesa do diretor, é como se fosse uma preparação para trabalhar nos EUA, e oferece uma explicação. Diz que "cinema" e "Inglaterra" são duas palavras que parecem não combinar uma com a outra. As pessoas são muito educadas e calmas para os filmes de Hitchcock. por isso os filmes de maior expressão do diretor são todos posteriores a esse. Por isso destaca que apenas dois diretores até àquela época tinham obras que resistiam ao tempo: Charlie Chaplin e Alfred Hitchcock. Apesar de hoje termos muitos filmes interessantes de diretores ingleses, não deixa de ser verdade ainda que são os dois diretores que mais continuam se destacando hoje e realmente resistindo ao tempo. Por isso são tão geniais.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

HITCHCOCK TRUFFAUT 21: A DAMA OCULTA - THE LADY VANISHES (1938)

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NOTA: 9.
- Você é a pessoa mais competitiva que eu já conheci na minha vida.

Truffaut declara que esse filme é o seu preferido na filmografia de Hitchcock, e não é difícil de entender o porquê. A trama é realmente uma das melhores que o diretor já filmou. Truffaut diz que como já conhecia a história de cor, ele planejava assistir para observar detalhes técnicos do filme, em especial a retroprojeção nas cenas do trem. Mas ele sempre ficava tão cativado pela história e pelos personagens, que nunca conseguia. Hitchcock acaba por lhe explicar que o filme foi rodado apenas em estúdio onde ele usou apenas um vagão do trem usado. 
O filme conta a história de uma mulher que está viajando no trem para encontrar com seu noivo. No caminho, é ajudada por uma senhora quando um vaso lhe cai na cabeça. Ela dorme e quando acorda a senhora sumiu. Ela passa a andar pelo trem procurando por ela enquanto todas as pessoas do trem tentam convencer a moça que a senhora nunca existiu. O único que a ajuda é um homem com quem teve uma desavença no dia anterior. Ele também parece não acreditar na veracidade da história, mas ainda assim se interessa em lhe prestar socorro.
Posteriormente, vamos descobrir que o problema é que a senhora está carregando uma mensagem que alguns grupos não querem que seja entregue. A trama é facilmente reconhecida por estar presente em diversos filmes. Mais recentemente, me vem à cabeça o filme Plano de voo, onde Jodie Foster perde sua filha dentro do avião e todos lhe dizem que nunca viram a filha. O mais interessante é que Hitchcock declara que é baseado em uma história real. Não a história, mas essa essência, e por isso continua sendo refilmada. Na maioria dos casos, fica cansativo depois de um tempo, mas nas mãos dele fica um filme bem interessante.
Claro que os que gritam que filmes não são verossímeis podem reclamar de certos detalhes da história. Coisas do gênero: "por que entregar uma mensagem importante para uma velha que qualquer um pode matar", ou até mesmo como a "mensagem pode ser uma música". O que realmente importa é que nas mãos de Hitchcock isso serve ao filme. Simples assim.
O que acho difícil de encontrar, são pessoas que falem sobre o elenco do filme, o que não é muito justo. Está certo que geralmente o grande astro do filme é o próprio diretor, mas aqui ele tem à sua disposição um elenco que lhe serve perfeitamente para contar a história. Mesmo uma dupla coadjuvante de dois homens que não querem perder a final de um jogo funciona muito bem. Nenhuma vez antes desse filme ele teve um material tão humano para trabalhar.
A partir daqui que o diretor começou a ser assediado para trabalhar nos EUA. Selznick o chamou primeiro para fazer um filme sobre o Titanic e eles assinaram um contrato que só valeria a partir de 1939, o que ainda lhe deu tempo de fazer um último filme na Inglaterra. O próximo da série a ser descrito aqui que tem o nome de A estalagem maldita.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

HITCHCOCK TRUFFAUT 20: JOVEM E INOCENTE - YOUNG AND INNOCENT (1937)

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NOTA: 8.
- Tem uma coisa que deveria fazer. Me agradecer por empurrar seu carro.

Depois de fazer um filme com um tema mais pesado, Hitchcock se volta para uma história mais ingênua em que  tenta ser mais divertido. Para isso, ele conta com um casal protagonista mais jovem que segue sendo perseguido. A tônica dominante segue: um homem acusado de um crime que não cometeu.
Este jovem é Robert Tisdall, acusado pela morte de uma mulher encontrada morta na praia. Na verdade, ele é o primeiro a encontrar o corpo, mas como corre atrás de ajuda, é visto como se estivesse fugindo da cena do crime. A única maneira que encontra para escapar desta situação, é fugir para ir atrás de uma pista que pode livrá-lo da acusação. Sendo procurado por toda a polícia, sua única ajuda é a filha do delegado que acaba por simpatizar por ele.
No lançamento nos EUA, o filme ganhou o nome de A girl was young, e o diretor lamenta que tenham retirado uma única cena no filme, que ele considerava a própria essência do filme. É uma cena em que a moça leva o rapaz para uma festa na casa de uma tia sua onde está tendo um aniversário. Durante uma brincadeira de cabra cega, a tia que está vendada tenta alcançar os dois para não deixá-los sair da casa. Ainda que pareça boba, é uma cena de suspense bem interessante.
Como Truffaut diz: "do mais afastado para o mais perto, do maior para o menor". Ele nos faz saber mais que os personagens dentro do filme, para que possamos torcer pelo desenvolvimento de como a situação vai se resolver. Eles estão procurando um homem com um tique específico em um grande restaurante. Nós sabemos onde ele está, eles não. Aí que se estabelece o suspense. Como é que os mocinhos vão descobrir onde está esse homem.
O filme chega a ser bem divertido, mas é constantemente limitado pela falta de carisma de seus personagens principais. Uma pena, já que poderia ser um dos filmes mais divertidos do diretor dessa era. A cena final do restaurante é simplesmente brilhante e segura a atenção da platéia por puro talento do diretor. O típico talento de Hitchcock, que ao contrário do que o nome sugere, não é nada inocente em suas mãos.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

HITCHCOCK TRUFFAUT 19: SABOTAGEM ou O MARIDO ERA CULPADO - SABOTAGE (1936)

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NOTA: 7.
- Estou dizendo a vocês. É um ato de Deus.

Depois de lançar um novo sucesso, Hitchcock cai em outra adaptação de um livro. O título do livro dessa vez é "The secret agent", por isso, para evitar confusões com seu outro filme, ele resolveu mudar o título para Sabotage. Nos EUA ainda, o filme ainda seria lançado com o nome de The woman alone. Aqui no Brasil, chegou como O marido era o culpado e posteriormente pela tradução mais literal.
É um filme interessante por apresentar uma dramaturgia muito boa e que prende a platéia, ainda que conte com uma narrativa um tanto quanto imperfeita para um trabalho dele. Ainda que a história como um todo não seja tão interessante assim, a forma como ele posiciona a câmera e conta a história parece corrigir qualquer imperfeição.
O filme conta a história de um homem que vive com sua mulher e o irmão pequeno dela. Eles tem um pequeno cinema que não está indo bem financeiramente, por isso o homem aceita trabalhos de sabotagem para conseguir manter seu negócio. Um detetive finge trabalhar numa quitanda em frente para poder vigiar as atitudes suspeitas do homem.
O que Truffaut ressalta e eu concordo, é que o grande problema é o personagem do detetive. Muito desinteressante e mal interpretado. Já Hitchcock escolhe outro problema que o incomodou posteriormente: a escolha da sua vítima cair em cima do pequeno garoto. O menino leva a bomba pelo bonde sem desconfiar do conteúdo. Durante a viagem, ele se torna muito simpático para a platéia, que ele acredita não perdoá-lo por matá-lo. Ou como Truffaut ressalta: é "um abuso do poder do cinema".
É engraçado, já que o diretor não dá tempo para desenvolver nenhum personagem. O filme é uma sucessão das cenas que apenas interessam o diretor a chegar ao clímax da sua história. São corte rápidos não apenas nas cenas, mas também na própria história.
Outro problema é que o detetive começa a flertar com a mulher do sabotador. Além de parecer um tanto quanto imoral, especialmente para um filme daquela época, é prejudicial porque o vilão é muito mais interessante que o mocinho. Esse tipo de atitude acaba fazendo com que a platéia torça para o "lado errado", enquanto deveríamos começar a torcer cada vez mais contra.
A melhor cena é a vingança da mulher ao descobrir a culpa do marido. Ela serve o jantar para o marido enquanto uma faca repousa na mesa. É um longo momento de tensão em que ele constrói o suspense e sabe como mantê-lo e por quanto tempo. Novamente mais uma amostra do talento de um grande gênio que consegue transformar o filme que poderia ser banal em digno de se assistir.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

HITCHCOCK TRUFFAUT 18: AGENTE SECRETO - SECRET AGENT (1936)

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NOTA: 7.
- Você ama seu país?
- Bem, eu acabei de morrer por ele.

Hitchcock continua aprimorando sua técnica de adaptações para o cinema. Dessa vez ele pegou histórias sobre o agente secreto Richard Ashenden (aqui interpretado por John Gielgud), que tem uma série de livros publicados. Para fazer seu filme, ele pegou dois livros e ainda uma peça baseada também no personagem. Toda a trama sobre a espionagem foi baseada nos livros, já o romance do agente ele tirou da peça.
Há algo, porém, que não funciona muito bem como em seus filmes anteriores, e o próprio diretor indica qual é o problema. Em todo filme de ação, o herói deve ter um objetivo, uma meta. Ashenden tem uma missão, mas essa o repugna. Ele não tem um real interesse em completar seu objetivo. Segundo ele mesmo observa, com isso fica difícil da platéia de apóia-lo. ou como diz depois, de mesmo ajudá-lo a cumprir seu objetivo.
Outro problema, é a própria missão que ele deve executar: matar um homem, o que não é lá tão emocionante assim de se acompanhar. Para piorar a situação, ele acaba confundindo o alvo com um inocente turista que nada tem a ver com a história. A morte do pobre homem só serve para afastar a platéia um pouco mais do mocinho, e tornando o vilão ainda mais interessante.
Truffaut lembra um detalhe que Claude Chabrol e Eric Rohmer observaram nesse filme de hitchcock e que ele ainda levaria para muitos outros filme: o vilão como sendo um homem rico, simpático, distinto, educadíssimo e sedutor. 
A trama: um homem é noticiado como morto em um jornal. É apenas um truque para que Ashenden possa trabalhar como agente secreto sob um nome diferente. Sua missão é assassinar um homem. Para isso ele conta com a ajuda do General (Peter Lorre) que sempre insiste em declamar todo o seu extenso nome, e Elsa (Madeleine Carroll), uma espiã mais interessada na emoção que a missão pode lhe dar que pelo próprio objetivo da missão.
Apesar da figura apagada do herói, que em momento algum consegue nos convencer que haja alguma coisa na Suiça que realmente mereça ser espionada, o filme tem bons personagens além do vilão. Lorre é interessantíssimo como um matador que vive perseguindo mulheres e Carrol, apesar de não ser tão bonita quanto outras atrizes que haviam na época, dá uma doçura à sua personagem que é muito bom de ver.
O que mais me incomoda no filme, é um erro decorrente: apesar de contar com uma direção primorosa, Hitchcock ainda parecia se cercar de amadores para fazer seus filmes. Movimentos de câmera imprecisos, edição de vídeo defeituosa e algumas vezes estranha e uma de som que contrasta silêncios bizarros com barulhos ensurdecedores. Não é um dos seus melhores ou piores filmes, mas ainda assim é muito interessante ver um grande diretor se formar filme a filme.
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