Mostrando postagens com marcador Filmes Eternos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Filmes Eternos. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO - THE BIRTH OF A NATION


NOTA: 10.

É o filme que definiu a "gramática cinematográfica" que ainda é usada. Simples assim. D. W. Griffith fez o que nenhum outro cineasta fez antes dele. Olhar para esse filme é quase como observar o nascimento de uma obra de arte. De uma forma de arte. Que hoje a música é feita de diversas formas e facilmente é uma coisa, mas não é mais impressionante quem inventou os primeiros acordes? Os primeiros acordes do cinema estão presentes neste filme.
Tendo dito isso, vocês podem me perguntar porque este filme não recebeu nota 100, como alguns outros poucos conseguiram, e a resposta é simples. Ao mesmo tempo, o filme é um capítulo vergonhoso da história do cinema. Clássico ou não, não se pode ignorar que se trata de uma história com conteúdo altamente racista e tão ofensivo que foi duramente criticado mesmo em uma época onde as pessoas podiam se declarar racistas abertamente.
Com quase cem anos desde seu lançamento, este filme é um desafio para as plateias atuais. Plateias desacostumadas com filmes mudos, mas que não podem esquecer a história do cinema. Ainda que tenha seu conteúdo controverso, é um filme que influenciou milhares de cineastas ao longo dos anos e um dos filmes históricos que temos. Na primeira metade do filme, o que temos são cenas de batalhas que impressionam pela forma com que foram filmadas. Griffith mostrou a todo o mundo o que um filme era, e tudo o que ele podia ser. Por isso, independente do que possamos dizer sobre sua história, o diretor jamais perderá seu lugar de destaque.
Devemos ainda pensar que Griffith realizou este filme em 1915. Não acredito que o diretor era abertamente racista ou mesmo membro da KKK, o que eu realmente acredito era que o seu principal interesse era contar uma história através de um filme, independente do que estivesse mostrando nas telas. Para seu azar, o filme mostrou o quão racista um homem branco naquela época podia ser sem sequer se dar conta de que era realmente racista. Ele mesmo só deve ter percebido isso depois.
Ou talvez eu esteja errado. Durante o filme, temos que todos os personagens negros importantes são brancos com a cara pintada. O efeito aparece ainda mais estranho, quando temos esses homens de cara pintadas no primeiro plano enquanto homens realmente negros estão fazendo figuração ao fundo. Ele tinha acesso a negros para realizar seus filmes, mas por algum motivo não os usava para nada além de figuração.
Agora gostaria de discutir sobre o que viram as pessoas na época do lançamento do filme e o que assistimos agora. Naquela época, as pessoas viram um filme escrever a "gramática cinematográfica" pela primeira vez durante três horas enquanto estavam acostumadas apenas a assistir filmes curtos. Hoje olhamos o filme e tudo parece natural para nós, porque estamos tão acostumados com essa gramática que parece que ela sempre existiu. E justamente o que enxergamos agora é o racismo nas telas, o que provavelmente deve ter passado despercebido pela maioria das pessoas que assistiram em seu lançamento.
Na primeira metade do filme, os negros são relegados a um segundo plano. O mais interessante nesta parte é a guerra entre o sul e o norte, e os homens que vão para a batalha em lados opostos e morrem. Ne segunda parte, vemos o sul que deve aceitar os negros mas claramente não conseguem, e o que o filme nos mostra são "as pobres mulheres brancas" que começam a virar alvos de negros. O terceiro ato é o mais ofensivo de todos, e culmina no "resgate dos brancos ameaçados" que serão salvos pela Ku Klux Klan, retratada como a última esperança branca.
Não sei dizer se ele era realmente racista ou se simplesmente era um "produto da época". Seja como for, Griffith passou muito tempo depois do lançamento deste filme tentando se eximir da culpa. Seja lançando uma nova versão editada onde cortava todas as cenas com a KKK, ou seja lançando um novo filme, Intolerância, que mostrava uma visão contrária deste. O que realmente importa para nós, cineastas, estudantes ou amantes do cinema, é que o filme tem seu lugar merecido na história do cinema. Ainda que a história incomode, a gramática permanece até hoje. 

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O MARTÍRIO DE JOANA D'ARC - LA PASSION DE JEANNE D'ARC



NOTA: 100.

É impossível fazer qualquer retrospectiva da história do cinema e não mostrar o rosto acima. O rosto pertencia a Maria Falconetti, e este é o único filme que protagonizou. Felizmente para ela, o suficiente para gravar seu nome na história do cinema. Em um tempo em que o cinema não tinha palavras, o lendário diretor Carl Theodor Dreyer usou o rosto da atriz para capturar a essência da personagem e conseguiu com um poder impressionante. É assistir o filme e olhar nos olhos da atriz para perceber que está diante de uma imagem que não vai te abandonar.
A renomada crítica de cinema Pauline Kael escreveu que essa pode ser a melhor performance já realizada em frente de uma câmera. Falconetti tinha uma expressão tão impressionante, que Dreyer a convidou para fazer o filme depois de assistir uma comédia que ela estava fazendo no teatro. Apesar de se tratar de uma comédia, havia algo no rosto da atriz que hipnotizou o diretor. "Havia uma alma atrás daquela fachada", como ele disse.
Diz-se que Dreyer jogou fora o roteiro e filmou a partir das transcrições do julgamento de Joana D'Arc. Essas "simples" transcrições contam a história de uma mulher que se transformou em uma lenda. A história de como uma mulher simplória do campo, se vestiu como um homem e liderou as tropas francesas contra os ingleses. Ela acabou sendo capturada por franceses leais à Inglaterra e julgada pela inquisição pois suas alegações que tinha inspirações divinas foram consideradas heresia e queimada na fogueira em 1431.
Outro fato que se conta deste filme, é que Dreyer descobriu que a montagem que fez foi acidentalmente destruída, e que ele teve que remontar o filme a partir de material que rejeitou na primeira montagem. Talvez por isso, tenhamos um filme sem uma única cena aberta e que mostre o grandioso cenário construído para o filme. Seja qual for a intenção, os closes funcionam tão bem estabelecendo uma relação entre os acusadores que temem a coragem da mulher.
E a montagem vai além. pouquíssimos planos tem elementos de continuidade entre um plano e outro, e fica muito difícil determinarmos geograficamente o lugar que estamos vendo e onde estão as pessoas neste espaço. O que podemos ver é como ele diferencia a filmagem de Joana D'Arc em tons claros, contrastando com a forte iluminação dos acusadores que mostra as imperfeições de todos os rostos sem maquiagem, prática incomum mesmo na época. 
Não temos nenhum outro filme com Falconetti para podermos comparar sua atuação, mas não posso deixar de ressaltar novamente a força que ela traz para o filme. Hoje em dia, estamos acostumados com emoções que vem através de diálogos. Assistir um filme como esse é perturbador por se tratar de uma experiência tão íntima que assusta. Ela passa tudo que precisamos saber apenas com sua expressão. Este é um filme que fala sobre os momentos finais de Joana D'Arc e nada além disso, e Dreyer contou como nenhum outro diretor conseguiu contar até o momento.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

HITCHCOCK TRUFFAUT 31: INTERLÚDIO - NOTORIOUS (1946)

Para ler o que já saiu de Hitchcock Truffaut, clique aqui.


NOTA: 100.
- Um homem não diz uma mulher o que fazer. Ela diz a si mesma.

Como Truffaut ressalta, este filme é o que mais se aproxima de toda a essência do que é um filme hitchcockiano. A quintessência de Hitchcock. Pelo menos de todos os filmes preto e branco. E isso porque o filme basicamente se resume a um único MacGuffin: uma amostra de urânio escondido dentro de uma garrafa de vinho. Esse é um dos simples que o diretor já usou, e talvez por isso seja o mais eficaz. Com certeza o melhor até agora. Na verdade essa é a genialidade do filme: se aproximar da simplicidade, e o faz com tamanha competência que o filme se torna algo além do que se podia esperar. Se torna genial.
Para convencer os produtores de que o MacGuffin funcionaria, o diretor teve trabalho para vender a ideia do filme. Ideia essa que surgiu em 1944, um ano antes das bombas de Hiroshima e Nagasaki explodirem. Inclusive, ele relata que a pesquisa que fez pro filme sobre a bomba atômica o fez ser vigiado pelo FBI. Mesmo depois de explicar ao produtor o que era um MacGuffin e a pouca importância que se deve dar a ele, o produtor resolveu se livrar do filme e os atores envolvidos. Erro que provavelmente o fez se arrepender depois de ver o sucesso do filme.
Junto a Casablanca, esse filme é que garante imortalidade a Ingrid Bergman. Ela é Alicia Huberman, mulher com fama notória (o que dá o título original do filme) que é convidada pelo governo americano a espionar nazistas que estão radicados no Rio de Janeiro. Quem a convence a realizar o trabalho é Devlin (Cary Grant), agente por quem ela se apaixona e que acaba a jogando nos braços de outro homem para que ela possa se infiltrar. No final, se trata apenas de uma história de amor entre um homem e uma mulher que acabam não ficando juntos por desencontros e mal entendidos.
Aqui acontece uma coisa interessante. Ao passo que vemos que ela está realmente apaixonada por ele, nunca temos certeza se ele a ama. Ele ainda a joga nos braços de outro homem, Sebastian (Claude Rains, outro que apesar de coadjuvante também se tornou imortal no cinema). Ele é realmente apaixonado por ela e acabamos criando uma certa empatia por ele. E ainda marca ainda mais sua presença quando se mostra um vilão que não puxa uma arma, mas sim se mostra calculado para realizar seus atos. Esse é um personagem realmente mau.
E quanta ironia: Devlin é mais alto e bonito que o inseguro, ciumento e dominado pela mãe Sebastian. Ainda assim, apenas uma vez vemos Sebastian desafiar sua mãe, e ele faz isso em prol de sua amada. Devlin quase nada em favor dela.
E para terminar, um final sensacional. Mesmo o diretor, que anteriormente caiu na armadilha de terminar seus filmes com perseguições ou grandes de cenas. Aqui, tal qual o MacGuffin, ele extrai o suspense de algo simples. Não há brigas, nem perseguições, explosões ou qualquer coisa do gênero. A cena é simples e guarda todo o suspense do filme. Ela é calma e delicada. E talvez por isso seja o filme preferido de Truffaut. Realmente é genial e finalmente começamos a nos aproximar da genialidade que fez o diretor ser quem é.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

FAÇA A COISA CERTA

Graças a um problema no Blogger, as postagens de quarta-feira até sexta-feira foram apagadas. Aparentemente, um problema que aconteceu com todo mundo. Felizmente, consegui resgatar a postagem de quarta e estou postando novamente para quem não leu. 


NOTA: 100.
- Qual é o seu problema? Isso não é pelo dinheiro. Não podia ligar menos para o dinheiro. Está vendo esse lugar? Eu construí com minhas próprias mãos.

Não há nada minimalista neste filme de Spike Lee. Este é um filme que vibra em cores, ódio, preconceito e intolerância, e tudo isso no calor de um único dia no Brooklyn. É também um filme controverso que causa muita discussão sobre ele. Especialmente o final.
Talvez algumas pessoas possam achar o filme confuso, mas devemos nos perguntar se ele não deve ser confuso. Lee faz uma mistura de personagens que mora nos bairros: são latinos, asiáticos, negros, brancos e descendentes de italianos. A grande genialidade, é que ele consegue falar de racismo entre todas essas raças e em momento nenhum toma parte de qualquer um. Ninguém aqui está certo, ninguém está errado. Há apenas a forma que eles e pronto. E todos os personagens são enfatizados.
O próprio Lee faz um personagem, Mookie, um entregador de pizza da pizzaria de Sal (Danny Aiello), o descendente de italiano que montou seu restaurante há muitos anos no bairro e toma conta com a ajuda de seus filhos, Pino (John Turturro) e Vito (Richard Edson). Mookie é casado com uma latina com quem tem uma filha e leva horas entre uma entrega e outra, e entre essas andanças ele passa por outros personagens como "Da Mayor", um homem que se diz o prefeito e que varre a calçada por alguns trocados.
Desde o início do filme, Lee ressalta o calor que está fazendo. Aquele tipo de calor que incomoda qualquer pessoa. Incomoda ao ponto de deixar as pessoas ainda mais intolerantes. Um homem que vai comprar pilhas para o seu rádio no mercado, quase arruma uma briga porque os asiáticos não entendem o tipo de pilha que ele quer. Qualquer coisa é motivo de confusão. E conforme o dia vai passando, as coisas não ficam melhores. Tudo vai chegando ao clímax onde todos são afetados.
Apesar de ser um bairro de maioria negra, não há um único negócio que apareça no filme que tenha um dono negro. A pizzaria é de um italiano e o mercado é dos asiáticos. As fotos na parede da pizzaria são todos de atores ítalo-americanos famosos. "Por que não há uma foto de uma celebridade negra?", Buggin Out (Giancarlo Esposito) pergunta. Abra seu próprio negócio e coloque a foto de quem quiser, é a resposta de Sal. Ele volta na pizzaria com Radio Raheem (Bill Nunn), que também está irritado com Sal por ele pedir para baixar seu rádio. Raheem está errado por incomodar todos com o som, Sal fica errado por quebrar o rádio e quando a polícia chega eles também incorrem em erro. Tudo é realmente uma confusão só.
O dia seguinte não traz melhoras. Todos tratam apenas de pegar o que sobrou de suas vidas e seguir adiante. Uns sem negócios, outros sem emprego e há aqueles que não vão ter mais nada. Ainda assim, nada muda no bairro. Talvez seja assim que as coisas funcionam. Lee deu uma entrevista recentemente onde lhe perguntaram se ele tinha feito a coisa certa no filme. Ele respondeu dizendo que nunca um negro lhe perguntou isso. Esse é o tipo de atitudes pungentes que temos no filme. Por isso ele é tão brilhante. Seja você quem for.

sábado, 16 de abril de 2011

HOMENAGEM AO ANIVERSÁRIO DE CHAPLIN: LUZES DA CIDADE


NOTA: 100.
- Você pode ver agora?

No dia 16 de abril de 1889, nascia Charles Spencer Chaplin, criador do personagem conhecido apenas como "The Tramp" (O Vagabundo). Li uma vez que a imagem do personagem é a mais famosa no mundo inteiro. Então devo supor que estou escrevendo sobre um personagem que todo mundo que está lendo, conhece.
Se perguntar sobre Chaplin, todos vão dizer que fazia comédias e citarão, principalmente, Tempos modernos e O grande ditador como seus melhores filmes. Bem, eu diria que o que ele fazia ia muito além de uma simples comédia, e se pudesse rever apenas um de seus filmes (que nada aconteça com seus filmes para que ninguém tenha que fazer essa escolha), o filme seria este.
Ele estreou o filme em meio a dois importantes eventos históricos. A grande depressão abalava economicamente e o cinema estava se reinventando. Fazia 3 anos que o primeiro filme falado tinha sido lançado e todos estavam correndo para lançarem seus filmes com falas. Chaplin foi contra à corrente e lançou seu filme sem um diálogo sequer, e ainda brincou com as duas coisas.
Logo no início, vemos o que vai ser a inauguração de uma estátua. O homem vai ao microfone para falar, mas ao invés de palavras, ouvimos um estranho barulho. Soa como um discurso, mas é incompreensível. Chaplin estava dizendo o que achava do cinema falado. Ele era a favor do som nos filmes, mas era contra os personagens falarem. Por isso que The Tramp nunca falou. Quando Chaplin finalmente falou em um filme, o personagem era diferente. The Tramp jamais falaria, e nunca falou porque não precisava falar. Seus gestos diziam tudo que precisávamos entender.
Ainda bem que ele se arriscou assim. Naquela época, a sonorização dos filmes ainda engatinhava e os filmes só podiam ser rodados em estúdios. Tais limitações só fariam o filme perder o seu encanto. Sem diálogos e com pouquíssimas cartelas (também quase tão desnecessárias quanto os diálogos), acompanhamos o mais nobre dos vagabundos conhecendo uma jovem vendendo flores. Ele demora a perceber que a jovem é cega. Ouvindo um barulho de porta de carro, ela acha se tratar de um homem rico. Ele se apaixona por ela e ela por ele. Apesar da confusão, eles se apaixonam por algo que vai além da beleza. Ela não pode vê-lo, o que a faz se apaixonar é a pessoa que ele realmente é. Ela foge de todos os estereótipos.
A outra relação que ele mantém no filme, também é de certa forma similar. O milionário que tenta o suicídio é salvo por ele e promete amizade eterna. O único problema é que toda vez que fica sóbrio, se esquece, mas quando volta a beber, vira novamente seu amigo. Isso acontece algumas vezes. Na última vez que se encontram, Chaplin lhe pede dinheiro para uma operação que pode restaurar a visão da jovem. O homem bêbado lhe dá o dinheiro, quando sóbrio o confunde com um ladrão querendo lhe roubar. Chaplin consegue fugir com o dinheiro e dá para a moça. Ele sabe que terá que pagar por isso, mas também sabe que vale a pena. Que ela vale a pena.
No final do filme, ele sai da cadeia e está ainda mais maltrapilho do que quando entrou. Ele passa em frente à loja que a jovem montou para vender flores. Ela não o reconhece. Como poderia? Ela nunca o viu. Ela o chama e ele tenta fugir, mas se vira para ela. Ela lhe dá uma rosa e uma moeda. Ao entregar a moeda, pelo toque, reconhece a mão dele. Ela não sabia que ele era pobre. "Você?", ela lhe pergunta. Ele somente balança a cabeça positivamente. "Você pode ver agora?", ele pergunta, e abre um sorriso. Ele sorri porque sabe que realmente valeu a pena. Aquela mulher é uma boa pessoa como ele imaginava que fosse.
É por isso que digo que seus filmes vão além da comédia. Claro que ele fazia rir, e aqui temos uma cena de luta de boxe que é candidata a mais engraçada de todos os tempos, mas seus filmes vão muito além das risadas. Eles tocam o coração. Aqui, não é somente o final do filme que nos emociona, mas em várias cenas ele mostra isso. 
E se nem o final deste filme te emocionar, se você realmente parar para prestar atenção no filme e a cena não surtir efeito algum, nada mais o fará. Você está além de qualquer relação humana, porque, para mim, estamos diante do melhor e mais emocionante final de um filme de todos os tempos. Mudo ou não. Agora, se reagir com emoção, verá porque Chaplin é o maior de todos os tempos. E porque esse é um dos melhores filmes.
Assim como ele é protagonista da cena mais emcionante do Oscar. Ele foi receber um prêmio honorário e teve o que deve ser (não posso afirmar com certeza) a maior ovação da história da cerimônia. Foi o reconhecimento de um gênio. E foi também um prêmio se emcionar como emocionou tanta gente. Poucos aplausos devem ser mais merecidos.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

DR. FANTÁSTICO - DR. STRANGELOVE OR: HOW I LEARNED TO STOP WORRYING AND LOVE THE BOMB



NOTA: 100.
- Senhores. Vocês não podem brigar aqui. Esta é a Sala de Guerra.

Um dos melhores filmes de Kubrick e é um dos menos celebrados. Quando se fala em Kubrick todos logo apontam para O iluminado e Laranja Mecânica, e poucos falam sobre Dr. Fantástico. Este filme concorreu aos prêmios de melhor filme, diretor e roteiro adaptado. O roteiro foi perdido para Becket, filme e direção foram para Minha bela dama, com Audrey Hepburn. Premiado ou não, é impossível falar sobre as melhores comédias do cinema sem citar essa obra prima de Kubrick.
A trama começa quando o Gen. Jack Ripper (qualquer semelhança com o famoso assassino não deve ser coincidência, interpretado por Sterling Hayden) decide mandar os aviões de sua base atacarem a Rússia. Seus motivos são simples: ele quer proteger a "pureza dos fluídos naturais do corpo", afinal os comunistas tem um diabólico plano de colocar flúor na água que os americanos bebem. A única pessoa que pode tentar evitar o ataque é o Cap. Mandrake (Peter Sellers).
O filme então se passa basicamente em 3 frontes: o escritório do lunático general, o interior de um dos aviões e a Sala de Guerra, que é onde o Gen. Turgidson (George C. Scott) explica para o presidente Muffley (Sellers de novo) que Ripper se aproveitou de uma brecha no sistema de defesa, o tornando a única pessoa capaz de cancelar os ataques. Fatos sempre confirmados pelo Dr. Strangelove (Sellers outra vez), um cientista alemão que tem um braço biônico que ou tenta estrangulá-lo ou fica fazendo uma saudação nazista.
O piloto do avião deveria ser o quarto papel de Sellers, mas como ele não se acertou com o sotaque, o papel acabou ficando para Slim Pickens. Seu personagem é o contraponto da sala de guerra. Enquanto todos lá estão preocupados com o fim do mundo, ele discursa sobre como seus comandados serão lembrados como heróis de guerra e promovidos.
A base do filme é a performance de seus atores. Todo o resto é irrelevante. E a performance dos atores é hilária. Sellers consegue fazer três papéis engraçados e totalmente diferentes. Um pouco atrapalhado como o capitão, estranhíssimo como o doutor e o único são da Sala de Guerra, mas ainda assim capaz de ligar para a Rússia e dizer "Dimitri, nós temos um pequeno problema" como quem está falando com a mãe zangada. Ele foi indicado por um de seus papéis.
Apesar de sua indicação, quem realmente domina o filme George C. Scott. Seu Gen. Turgidson é a melhor no filme. É dito que ele declarou que não gostava que Kubrick sempre lhe pedisse para exagerar na atuação. Talvez por isso, cada vez que ele exagera na forma como se move, ele compensa dizendo cada linha como se fosse uma verdade absoluta. O resultado é que vemos que ele se move de um jeito engraçado, mas o que ele diz e da forma que diz nos impede de achar o comportamento estranho.
Como em 2001, Kubrick discursa sobre os problemas que as máquinas podem trazer para as nossas vidas. Elas não fazem nada errado, o problema está em quem as projeta e as programa. O prepotente homem que a concebe para ser infalível e comete ele mesmo uma falha. Em 2001, HAL 9000 quer apenas proteger a missão. Aqui, as máquinas vão apenas cumprir o seu propósito: a destruição do mundo. Não é culpa delas, é apenas a sua função.
Último filme em preto e branco de Kubrick, e um filme que realmente causou mudanças na política americana depois de seu lançamento. Passaram em branco no Oscar, e infelizmente nem Kubrick venceu como diretor, e com essa ele teve 4 indicações, assim como Peter Sellers foi indicado por 3 vezes sem vencer jamais. Mas pelo menos gravaram seus nomes no cinema com esses e com outros filmes.

PS: Este é o filme indicado ao Oscar com o maior título. No original: Dr. Strangelove or: how I learned to stop worrying and love the bomb.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

UM ESTRANHO NO NINHO


NOTA: 100.
- Mas eu tentei, não foi? Pelo menos eu fiz isso.

Algumas vezes eu declarei o que considero algumas injustiças do Oscar. Como eles premiam alguns filmes em detrimento a outros que mereciam melhor sorte. Recentemente falei de Los Angeles - cidade proibida assim como falarei, um dia, sobre Pulp fiction. Devo ressaltar, porém, que algumas vezes eles acertam em cheio, e esse é um dos maiores acertos.
Indicado a 9 prêmios, este filme ganhou os principais: filme, diretor (Milos Forman), melhor roteiro adaptado (Lawrence Hauben e Bo Goldman), ator (Jack Nicholson) e melhor atriz (Louise Fletcher). E ainda hoje vai constar em qualquer lista séria de melhores filmes de todos os tempos. Um dos motivos, é porque raramente você encontra um filme com cenas tão boas, que quando passa por uma cena que não seja necessariamente boa, esta passa desapercebida.
Jack Nicholson interpreta R. P. McMurphy, um criminoso que se finge de louco para não ter que ir para a cadeia. Ele provavelmente começa o filme pensando que seria como umas férias no manicômio, só muito depois ele vai descobrir o quanto está errado. Ele não trata nenhum dos internos como se fossem doentes e até mesmo tenta ensinar basquete para o Chefe (índio), que não fala com ninguém há 12 anos.
Claramente ele não pertence aquele lugar. Ele é um homem que quer agitar as coisas e as pessoas, o que vai totalmente de encontro com o que a enfermeira responsável, Ratched (Fletcher), prega. Ela quer as coisas do jeito que estão. As coisas e talvez seus pacientes. Por isso, em nenhum momento do filme, qualquer paciente receba alta de lá. Talvez McMurphy conseguisse fazer alguém ter uma alta, assim como a festa que ele realiza com certeza ajuda Billy (pena que a "cura" só dure até a chegada de Ratched).
McMurphy tenta lutar contra todo aquele conformismo, que pode até ser uma crítica ao espírito da nossa sociedade atual. Durante o filme, descobrimos que o Chefe pode falar, que Billy não precisa gaguejar e que os outros não precisam ser tão apáticos. Há um paciente que até mesmo está lá por vontade própria. Não tem jeito dele vencer isso. Sua única chance é fugir ou se quebrar ao sistema. O filme não é sobre loucura, é sobre a derrota de um homem. Mas pelo menos ele tentou, como ele mesmo diz.
O elenco é sensacional, com destaque especial para Nicholson. Este é o ponto mais alto de uma carreira cheia de pontos altos. Tudo que ele faz no filme é perfeito. Fletcher está muito bem seu papel também, só é uma pena que seu papel seja estável demais. Ela é a enfermeira que acha que sabe de tudo e que sempre está certa. Ela faz muito bem, mas nunca sai do mesmo tom. É como ver um atleta que sempre joga bem sem nunca apresentar um brilhantismo: é bom mas não empolga. Talvez  se houvesse uma cena em que ela parecesse diferente, como o Chefe tem quando fala do pai dele, e sua personagem também seria perfeita. 
Nada que estrague o filme. Lembra quando disse de ter cenas tão maravilhosas que esquecemos do resto? É isso que estou falando. A maioria das pessoas não vão se lembrar do Chefe falando, mas sim da festa, da rebelião dos internos, da pescaria e da derrota de McMurphy. Mesmo a fuga do chefe é apenas um prêmio de consolação comparado a todo o resto.

OBS: Só para mostrar a força do filme na premiação, vale a pena lembrar que ele disputava com pesos pesados. Milos ganhou seu prêmio disputando com Robert Altman (Nashville), Stanley Kubrick (Barry Lyndon), Federico Fellini (Amarcord) e Sidney Lumet (Um dia de cão). Destes, apenas o filme de Fellini não foi indicado ao prêmio principal, o quinto indicado era Tubarão, de Spielberg. Concorrência pesadíssima.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

LOS ANGELES - CIDADE PROIBIDA



NOTA: 100.
- Não tente fazer a coisa certa, rapaz. Você não tem a prática.

O Oscar de 1998 coroou o épico Titanic, de James Cameron, com 11 prêmios. Uma pena que esse feito, embora notável, tenha ofuscado uma obra-prima. Eu hoje vejo mais virtudes neste filme de Curtis Hanson, do que na obra de Cameron. Apesar de ter sido filmado como um filme noir, a obra de Hanson parece atemporal. Fora seu figurino, poderia muito bem se passar nos dias de hoje e ainda ter a mesma força.
Antigamente, em Los Angeles, existia uma revista chamada Confidential. Sua especialidade era as fofocas de celebridades, principalmente as mais sujas e picantes. Foi essa revista que deu origem ao surgimento dos tabloides sensacionalistas tão comuns hoje. E esse filme se inspira nessa revista, não só na figura de Danny DeVito, mas como no fato de explorar a podridão policial da época. Assim, se misturam ficção e realidade daquela época.
Danny Devito interpreta Sid Hudgens, dona da revista Hush Hush. Sua voz é a que primeiro aparece no filme. Ele narra eventos que podem parecer irrelevantes, mas não são. Incluindo a morte de Mickey Cohen, um gangster real da época. O policial que mais trabalha com ele, e aparece em muitas de suas capas, é Jack Vincennes (Kevin Spacey), uma espécie de policial da mídia. Além de aparecer nas capas, ele é consultor técnico de um seriado conhecido como Badge of honor (um equivalente ao Dragnet, tanto que usa o mesmo bordão: "Just the facts").
Não posso esquecer que foi este filme que levou Russel Crowe ao estrelato. Antes disso, seu maior destaque era Rápida e mortal, horroroso faroeste com DiCaprio e Sharon Stone. Aqui ele interpreta Bud White, um corajoso e brutal policial que usa muito mais os punhos do que o cérebro. Pelo menos na primeira parte do filme.
Contrário a ele, é Ed Exley (Guy Pierce), um covarde brilhante e carreirista. Seu objetivo é subir de posto mais novo que seu pai, falecido, conseguiu. Nem que para isso, ele tenha que pisar em outros policiais e se tornar odiado por toda a delegacia.
Cada um investiga um caso diferente, que é parte de um caso muito maior. O que pode ser realidade em algumas coisas, pelo visto. O incidente do início do filme, Natal Sangranto, também é real. Assim como Lana Turner realmente namorou o guarda-costas do mafioso Mickey Cohen, Johnny Stamponato. O único porém seria que eles namoraram em 1957 e o filme se passa em 1953, mas quem liga? Uma curiosidade? Johnny foi morto pela filha de Lana Turner depois que ela o pegou traindo a mãe.
A história também envolve uma rede de prostituição comandada por Pierce Patchett, com prostitutas que parecem com estrelas de cinema. Uma delas é Lynn Bracken, uma personificação de Veronica Lake que se apaixona por Bud White. Sua personagem é a única doce em todo o filme. Quando ela diz calmamente porque ama Bud, você entende porque ela mereceu o Oscar daquele ano.
Pra mim, com certeza o melhor filme de 1997. Não apenas pela ótima história, grandes personagens (e muito bem construídos) e a atmosfera perfeita para um filme policial, mas pelo brilhante trabalho de adaptação de uma história extremamente complicada. Poderia ser confuso, mas aqui é apenas um ótimo filme com uma grande história. Um dos melhores policiais de todos os tempos.

Kim Bassinger e Veronica Lake

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

TRÊS HOMENS EM CONFLITO


NOTA: 100.
- Duzentos mil dólares é muito dinheiro. Vamos ter que fazer por merecer.

Na minha humilde opinião, esse se trata de um dos melhores faroestes de todos os tempos. E feito por ninguém menos que um gênio: Sergio Leone. O maior nome dos chamados "faroestes spaghetti". E esse é provavelmente o maior, e melhor, dos filmes spaghetti. Somente Leone competiria com ele mesmo lançando Era uma vez no oeste.
Antes de começar a falar do filme, é melhor avisar que este é a terceira parte de uma trilogia: A trilogia do homem sem nome. É chamada assim, porque o personagem principal interpretado por Clint Eastwood nunca se apresenta. No primeiro filme o chamam de Joe, no segundo Manco e aqui um personagem o chama de Blondie.
Talvez assim que deva ser um personagem de faroeste: um homem sem nome e sem passado. E digo isso, porque não precisa assistir os dois filmes anteriores para curtir esse. Ele fala pouco, mas sempre evoca autoridade. Não é o tipo de cara que você se meteria.
O filme foca em três personagens: Blondie é o bom, Olhos de Anjo (Lee Van Cleef) é o mau eTuco (Eli Wallach) é o feio (do nome original, The good, the bad and the ugly). A história dos três se junta porque  estão atrás de duzentos mil dólares em ouro, o que era muito dinheiro naquela época. Segundo uma conversão que li, esse dinheiro hoje seria equivalente a mais de 10 milhões. Por isso que eles fazem por merecer esse dinheiro.
Os dois filmes anteriores parecem apenas um rascunho do que Leone estava a ponto de nos presentear. Eram extremamente baratos, o que atrapalhava o resultado final. Aqui ele não tem essa limitação, o filme contava com um orçamento de 1.6 milhões de dólares. Considere ainda que todo o elenco era muito barato (na época, Eastwood ainda era ator de TV e visto como nada rentável - quem pagaria pra ver um ator que pode ver de graça na TV?), que podemos considerar que todo o dinheiro era usado para fazer o filme. Isso inclui a explosão real de uma ponte (que por um erro teve que ser reconstruída para explodirem de novo).
Leone usa um recurso muito interessante pouco usado em faroeste, especialmente os de Ford, os close-ups. As cenas fechadas limitam o espaço conhecido pelo espectador. O que não vemos, pode nos surpreender. Há uma cena, por exemplo, que Tuco e Blondie caminham em uma estrada e são surpreendidos por soldados que os capturam. Eles dão apenas dois passos e se encontram num acampamento gigantesco, com milhares de pessoas. Como eles não puderam ver aquilo? Pelo mesmo motivo que nós: não estava aparecendo no quadro. Simples assim. Outras cenas ilustram o mesmo conceito.
E tudo termina num "trielo" maravilhoso. O conceito por si só já é interessante. Três homens armados se distanciam. Quem atira em quem? Se um atirar um no outro, o terceiro escapa. E por aí vai com outras possibilidades. Para melhorar, Leone testa os limites da paciência da platéia. O tempo se estende a um ponto tal que parece que o tiroteio nunca vai acontecer realmente. E quando parece que vão atirar, ele alonga o tempo mais um pouco. É de roer as unhas.
Com certeza é uma obra prima maravilhosa.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

PSICOSE (1960)


NOTA: 100
"Ela só fica meio zangada ás vezes. Todos ficamos um pouco zangados de vez em quando, não ficamos?" Norman Bates

Essa é a frase que Bates usa para justificar a fúria com que a mãe fala para ele, mas eu me pergunto se não há algo além disso. Será que não se trata de Hitchcock falando para a platéia? Todos ficamos meio zangados de vez em quando, então será que não somos todos passíveis de comermos um crime?
Não vou discorrer muito sobre a história do filme, pois ela é conhecida de todos. Mesmo quem nunca assistiu o filme sobre sua história e principalmente sobre suas surpresas. Quantos filmes você conhece que tenham esse poder?
Hitchcock já era um diretor muito bem sucedido, por isso causou espanto quando decidiu fazer um filme de baixo orçamento. No caso, foram 800 mil dólares, baixo mesmo para a época e principalmente para um diretor de seu calibre. A idéia de Hitchcock era fazer um filme em preto e branco para que a platéia não se espantasse com a quantidade de sangue. Um orçamento tão baixo gerou mais de 40 milhões de bilheteria, um número assustador na época e ainda valeu ao diretor umas das suas cinco indicações ao Oscar.
Ele monta o filme com um tom de voyerismo. A câmera mostra a cidade para entrar pela janela. Não será a única vez que seremos convidados a acompanhar aquela mulher. Marion Crane está de soutien branco deitada em uma cama de um hotel com seu amante. Eles não podem ficar juntos porque ele tem dívidas. Então surge um homem arrogante e inconveniente com 40 mil dólares no lugar onde ela trabalha e ela pega o dinheiro e foge para a cidade de seu amante. Quem pode culpá-la? Ela quer apenas viver com o homem que ama, então sob essa ótica seu crime não chega a ser nada grave.Por isso ela parece tão angelical com sua lingerie branca.
Uma das minha cenas favoritas é uma pouco celebrada. Marion está dirigindo o carro quando começa a chover muito forte. Uma tempestade. A música tema, conhecida de todos, começa a tocar e a cena intercala seu rosto e a pista debaixo de uma forte chuva, apenas isso. Um diálogo em off mostra um possível diálogo de seu chefe com o dono do dinheiro que Marion roubou. Isso é tudo que ele precisou para construir uma cena tensa que não apenas prende o espectador como dá ciência à platéia do que está para acontecer  com ela pelo crime que ela cometeu. Um diálogo que não teria como ela ouvir.
Essa chuva a faz com que pare um um hotel na beira da estrada. O hotel Bates. Ela tem uma longa conversa com Norman e os dois se conectam. Não amorosamente ou mesmo sexualmente. Há uma cumplicidade na culpa que os dois carregam. Isso o assusta e por isso ele deve matá-la. E assim, Hitchcock mata a heroína faltando mais da metade do filme e troca a protagonista por Bates. Um dos mais ousados truques que ele usou em sua extensa carreira. E logo quando a moça repensou no que estava fazendo e se mostrava arrependida. De qualquer forma, ninguém em um filme dele cometeu um crime e escapou impune.
O que nos leva à famosa cena do chuveiro. A cena impressiona tanto e não é tão violenta quanto parece. A música dita o ritmo das facadas e o sangue jorra pelo corpo da mulher, mas apesar disso a faca nunca penetra em seu corpo. Nunca é mostrado seu corpo com qualquer ferimento. A cena termina com um close do olho imóvel dela e a música vai diminuindo o volume, como se fosse seu batimento cardíaco. Quando a música termina, a mulher está morta.
O filme se tornou imortal na história do cinema. Ele nos conecta com nosso medos. Se não o medo de cometer um crime, pelo menos o medo de sermos vítimas de um. Seja qual for. Nenhum filme de Hicthcock, nem antes nem depois, causou tamanho impacto. O cartaz dizia para não contar as surpresas para ninguém. Em sua entrevista para Truffaut, ele diria que não era por grandes atuações nem por uma mensagem que passe para o público, a platéia ficou apenas surpresa por um filme, no sentido puro da palavra.
Só não é perfeito pela longa explicação de um psquiatra sobre o comportamento de Norman. Uma mania do diretor de deixar tudo explicado para a platéia, mas ainda assim um suspense memorável. Um dos maiores que somente ele poderia criar. E é "apenas" um filme. No sentido realmente puro da palavra.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

ESPECIAL GODARD: WEEKEND - 200ª POSTAGEM


NOTA: 100.
Corinne - Você não ouviu o que ele disse? Marx disse que somos todos irmãos.
Roland - Marx não disse isso. Foi outro comunista quem disse. Jesus disse isso.
Chegamos a postagem de número 200 e a última resenha do especial sobre Godard. Desde sua estréia em Acossado até este filme, em 1968, Godard sempre procurou formas de surpreender a platéia. Aqui não foi diferente, basta dar uma olhada na foto escolhida para ter uma idéia. Esta é uma das imagens surpreendentes que o diretor colocou que vai surpreender, e em alguns casos chocar, a platéia. Os fãs de David Lynch devem assistir a esse filme antes de chamá-lo de inovador.
Basicamente o filme conta a história de um casal. Eles planejaram um acidente de carro para que o pai da moça morra e eles fiquem com a herança. Pouco a pouco, o diretor vai colocando cenas para preparar o terreno para o que está por vir. Um acidente de carro acaba com o espancamento de um homem, depois, o próprio herói do filme, Roland, tenta fugir de um acidente que cometeu, a cena segue com ele jogando tinta em uma mulher enquanto esta lança bolas de tênis contra ele usando uma raquete.
Se o filme já parece estranho, depois só piora (ou melhora, dependendo do ponto de vista), e as cenas vão ficando cada vez mais desconexas. Os personagens tem plena consciência de que estão em um filme. Um chega a afirmar que é um filme ruim onde só tem gente estranha. Em uma outra cena, Roland toca fogo em uma personagem que parece ter saído de uma viagem lisérgica de Lewis Caroll. "Ela é só um personagem" ele responde quando a mulher diz que são pessoas terríveis.
Até que chegamos em uma das cenas mais emblemáticas da carreira de Godard: os dois estão presos em um engarrafamento enorme. A câmera acompanha em um travelling enquanto o casal vai avançando na contra mão para fugir do engarrafamento. A câmera deve acompanhar o carro por cerca de um quilômetro ou mais enquanto o carro deles passam pelas pessoas e até mesmo um carro de zoológico. Depois disso eles abandonam o carro e seguem sua jornada a pé, onde encontram até mesmo um bando canibal.
Falar mais sobre o filme pode estragar a surpresa. Ou até mesmo cair no erro de tentar explicar o que não pode ser explicado. Este pode ser um dos melhores filmes do diretor e com certeza o mais inventivo, deixando para trás até mesmo O demônio das 11 horas. Ele nos envolve num cenário de loucuras que começa a parecer totalmente normal nesse maravilhoso mundo que ele criou. E tal qual os personagens agem perante a desgraça dentro do filme, tudo que fazemos é assistir.

domingo, 29 de agosto de 2010

ESPECIAL GODARD: VIVER A VIDA

NOTA: 100.
"Um momento de pensamento só pode ser captado por palavras." O filósofo

Este talvez seja o melhor filme de Godard. Muitos vão discordar. Ou por não terem gostado do filme ou por simplesmente gostarem mais de algum outro filme dele. Susan Sontag chegaria a declarar que este filme é a melhor, mais maravilhosa e bonita obra de arte que ela já tinha presenciado. Alguns dizem que o diretor deveria procurar se aprofundar mais em assuntos mais relevantes, eu gosto de ver como ele consegue pegar assuntos que as pessoas podem considerar banais e realizar filmes maravilhosos. Como já disse anteriormente, não é a história, mas como ela é contada.
Novamente Anna Karina estrela o filme. Dessa vez ela interpreta Nana, uma típica parisiense. Exceto que não há nada típico em Nana. Anna Karina é uma mulher belíssima que já chamaria atenção normalmente. O filme abre com closes do rosto da atriz. Virada para um lado, de frente e virada para o outro lado. Tal qual os criminosos têm suas fotos tiradas. Cada vez que o ângulo muda, a música entra e antes que a tomada termine ela é abruptamente cortada. Talvez seja a maneira de dizer que a música não consegue fazer jus a beleza daquela mulher. Ou que talvez não possa lhe dar profundidade.
Ela começa o filme conversando com um homem. Pela conversa, descobrimos que ele é marido dela e que eles têm uma filha. Eles não estão mais juntos. Ela gosta dele? Se interessa pela filha? O filme não diz nada sobre isso. Se ela se importa não demonstra. Há apenas um cena em que ela demonstra sentimentos. É quando ela vai assistir ao filme Joana D'Arc e assiste a cena onde a protagonista está sendo julgada pelos homens da igreja. Talvez seja mais um caso onde a protagonista se importa apenas com ela mesma e se identifica com aquela cena.
Ela nunca parece ter dinheiro. Aparece trabalhando em uma loja de discos, mas pede a uma colega dinheiro emprestado por estar dura. Ela volta para o apartamento mas a senhoria não a deixa entrar. Tudo que ela faz é pago por homens. Jogar, ir para o cinema, cigarros e beber. Ela acaba se acostumando com isso. Ela anda por uma rua com prostitutas e um homem lhe convida. Ela aceita. Na França, a prostituição também é chamado de "a vida", o que pode explicar o título do filme.
Acompanhado de Raul Coutard, seu diretor de fotografia, Godard acompanha a vida dessa mulher com um ar de voyerismo. A câmera não é apenas para gravar imagens, a câmera é uma presença. A presença de qualquer pessoa que queira acompanhar a vida daquela mulher. Somo nós que a estamos acompanhando. Dizia-se que ele "girava a câmera em 360º, duas vezes, e depois a movia na direção oposta só pra mostrar que sabia o que estava fazendo". Aqui é Godard mostrando que sabe o que está fazendo. É só observar a cena onde Nana dança em volta de mesas de sinuca e comprovar. Mais uma obra de gênio.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

ESPECIAL GODARD: ACOSSADO

Quem acompanha o site há algum tempo, sabe que costumo fazer algo diferente para comemorar uma "data especial". Foi assim na postagem de número 100 e se repetiu na postagem que comemorava um ano de blog. A ocasião agora é a chegada da postagem de número 200. Na verdade, esta será dividida em 10 partes. Estamos na postagem 191, e a 10ª parte comemorará a postagem  200, sendo um especial dos 10 melhores filmes, na minha opinião, do diretor francês Jean-Luc Godard. Como tenho observado, muitos conhecem de nome mas poucos realmente viram seus filmes. Quem quiser começar a ver, segue um pequeno roteiro que poder ajudar a conhecer este maravilhoso, e revolucionário, diretor.
Também aproveitando a data, alterei algumas coisas no blog. Além do visual mais claro, embaixo de cada postagem os leitores podem marcaram se gostaram ou não da resenha, ou se simplesmente  a acharam inútil. Assim, vamos tentando tornar o blog cada vez melhor. Por isso, quem quiser pode usar a parte de comentários para opinar, dar sugestões ou críticas. Obrigado a todos que acompanham.


NOTA: 100.
"Não é preciso mentir. É como poker, a verdade é melhor. Os outros vão pensar que ainda está blefando, então você vence." Michel Poiccard

Foi nos anos 1960 que estourou um importante movimento cinematográfico mundial: a nouvelle vague francesa. Os diretores eram críticos de cinema que escreviam para a revista Cahiers du cinéma e contava com Truffaut, Chabrol entre outros. Godard era o mais novo, seja em idade quanto em experiência de cinema. Como os outros da "nova onda", ele amava o cinema americano, tanto que resolveu fazer um, só que acabou sendo melhor do que qualquer filme americano que estava sendo feito na época.
A história contada é a relação entre Michel (Jean-Paul Belmondo) e uma americana expatriada (é comum a presença de americanos em seus filmes) , Patricia (Jean Seberg). Ele é um ladrão de carros e ela vende jornais na rua. Em um de seus "trabalhos", Michel mata um policial e acaba sendo procurado pela polícia. Conforme o filme vai se desenrolando, vemos como o cerco se fecha ao seu redor cada vez mais. Os dois se juntam pelo desejo que ambos têm de partir de Paris. De ir para um lugar onde eles possam ter um novo começo.
O que eles têm em comum? Uma incrível paixão por eles mesmos. Raramente o cinema viu personagens tão cínicos em sua história. Em uma determinada parte Michel diz "Quando estamos juntos, eu falo de mim e você de você, quando deveríamos falar de nós." Eles são amorais e não amorosos, também inconsequentes como um casal de adolescentes. Eles tem aquela da coisa da juventude. Michel se envolve em duas mortes, e em nenhum dos casos a arma pertencia a ele. Aconteceu de nesses momento críticos, ele ter uma arma. Em um caso achada, em outro emprestada.
Michel é claramente inspirado nos papéis que Bogart interpretava. Em frente do espelho ele fica sempre tentando imitar as caretas que fazia nos filmes. Sempre de chapéu e um cigarro no canto da boca. Ele somente tira um cigarro para colocar outro aceso. E a repetição da marca de Bogart: passar o polegar por cima dos lábios. Então, basicamente o que Godard fez foi transformar o personagem policial de Bogart em diversos filmes e transformá-lo em um vilão. O resultado é maravilhoso.
Esse é o trunfo de Godard. Não é a história, é como ele a conta. Se comentei na resenha anterior sobre as coragens narrativas de Resnais, não posso deixar de declarar que Godard foi um dos mais corajosos. Seus cortes rápidos, seus cartazes e letreiros eletrônicos inseridos no filme que deixam pistas para a platéia do que vai acontecer. Tudo no filme tem um cheiro de novo e moderno, tanto que até hoje ele pode ser visto e apreciado como se não tivesse envelhecido.
Lembro que escreveram que antes o cinema só tinha conhecido dois grandes momentos revolucionários: O nascimento de uma nação (D. W. Grifith) e Cidadão Kane (Orson Welles). Godard estava, na época, protagonizando o terceiro. Era o início do cinema moderno. Desde Kane nenhum filme tinha influenciado tanta gente no cinema. Godard reverenciava o cinema americano e depois o cinema americano reverenciaria Godard, no final dos anos 1960, especialmente com Uma rajada de balas.

terça-feira, 6 de julho de 2010

NOSTALGIA: UMA RAJADA DE BALAS (1967)


NOTA: 100.
"Nós somos a gangue Barrow e nós estamos aqui para roubar o banco." Clyde Barrow

Esse não é apenas um ótimo filme (e eu realmente o acho um filme magnifíco), esse é o filme que deu o início da era moderna do cinema americano. Tendência que ainda acompanhamos nos filmes atuais. Então não posso deixar de destacar a importância que o filme teve em seu lançamento e nas produções que se seguiram. Filme que se inspirava no então muito badalado cinema francês. Dizem que o filme teria sido oferecido a Truffaut e este o recomendou a Warren Beatty, que se tornaria pela primeira vez na história um ator que também produzia o filme.
Acompanhamos a história de um dos casais criminosos mais famosos dos EUA. Logo de cara, Bonnie (Faye Dunaway) flagra Clyde tentando roubar o carro da sua mãe. Ela sabe que ele é criminoso e ele lhe diz isso, mas ainda assim ele é a chance dela de sair daquele marasmo onde ela vive. Ela quer a emoção, ele quer a notoriedade. Não é por acaso que eles não usam máscaras ou o que quer seja. Clyde se anuncia antes de cada assalto. Ele quer os créditos. E desde o início do filme a platéia sabe que os dois estão condenados. Não pode haver um final feliz para os dois.
O final, na verdade, é o que redefiniu o cinema. Bonnie e Clyde são encurralados pelos policiais. Muitos deles. Eles não tem intenção em se entregar e a polícia também não parece muito interessada em capturá-los com vida. O que se segue não é um tiroteio, é um pelotão de fuzilamento executando o casal. A cena é a violência crua, com muito sangue espirrando e partes do corpo voando na direção da câmera. Um tipo de violência como NUNCA tinha sido mostrado no cinema americano, que na época chocou muita gente.
O filme foi um sucesso mesmo contra as expectativas. O filme era desprezado pela Warner e de baixo orçamento. Tinha uma única estrela: Warren Beatty. Faye Dunaway, Gene Hackman e Gene Wilder só vieram a ser conhecidos depois do sucesso do filme. Dizem que Beatty se ajoelhou na frente de Warner implorando pra que ele financiasse o filme, que não se interessava em nada pela história. Beatty nega que isso tenha acontecido, mas outras testemunhas afirmam que isso realmente aconteceu.
O que é verdade ou não agora não importa. O que importa é que o filme hoje é um dos melhores filmes de todos os tempos. Feitos nos EUA ou em qualquer parte do mundo. Claro que a violência hoje foi banalizada e o final possa perder um pouco de sua força hoje, mas é importante lembrar que apesar de violento, o final apenas dá força ao filme. Ao contrário da violência gratuita que hoje existe no cinema onde se chega a ver cenas de tortura. Estamos diante de um filme de arte. Imperdível e obrigatório para qualquer um que goste de cinema.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

LADRÕES DE BICICLETA (LADRI DI BICICLETTE)


NOTA: 100.
"Você vive e você sofre." Antonio Ricci

Um breve resumo de um dos maiores movimentos do cinema: O Neorealismo Italiano. O movimento começou após a segunda grande guerra. A grosso modo, para não me alongar, foi o movimento que reergueu o cinema italiano. Os diretores usavam atores não profissionais, geralmente encontrados na rua e que tivessem algo em comum com seus personagens, usavam somente locações e para filmar usavam até mesmo rolos de filmes vencidos. Tudo que era mais barato. Se tornou importante porque economizava na produção, mas não na história.
Esse talvez seja o filme mais importante desse movimento. O diretor, Vittorio de Sica, tinha ganho prestígio com seu filme anterior e poderia até mesmo ter rodado este filme com Cary Grant no papel principal, mas de Sica não abriu mão de seus "atores naturais". Ele dizia que tem um papel que ninguém pode fazer melhor que aquela pessoa, que é interpretar ela mesmo. Depois de finalizado nunca se arrependeu, dizendo que gostava do "frescor" que as atuações passavam.
Depois de dois anos desempregado, Antonio Ricci consegue um emprego. O único porém é que pra ele "tomar posse" precisa de uma bicicleta. Naquela época ter uma bicicleta era praticamente um luxo para certas pessoas, para quem está muito tempo desempregado então, nem se fala. Ainda assim ele consegue a bicicleta e para seu desespero ela é roubada logo no primeiro dia. O resto do filme, é sua busca, junto de seu filho, atrás dela.
Não se deixe enganar com a aparente simplicidade da trama. O filme tem uma mensagem forte que atrai qualquer pessoa que for assistir. A estréia do filme teve repercussão mundial. No ano seguinte, ganhou um Oscar honorário e ganhou todo e qualquer prêmio que tenha disputado no ano. Apenas quatro anos depois já figurava na lista dos melhores filmes de todos os tempos. Um fenômeno imediato.
É difícil dizer se o uso de não atores foi a melhor escolha. Impossível saber se seriam melhores ou piores. O que se pode dizer é, os que estão trabalhando estão ótimos. As variações que Lamberto Maggiorani dá para personagem Antonio é impressionante, e Enzo Staiola como seu filho mostra uma confiança de profissional. Estranho pensar que antes, Maggiorani realmente estava lutando contra a pobreza. Pelo menos depois do filme, conseguiu se manter, ainda que precariamente na carreira de ator.
Acredito que deva ser visto por qualquer pessoa que tenha alguma afinidade com cinema. Se trata de uma obra realmente inesquecível.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...