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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

ESPECIAL GODARD: DEMÔNIO DAS ONZE HORAS

 

NOTA: 10.
"Ainda bem que eu não gosto de espinafre. Porque se eu gostasse, comeria, e eu não suporto aquilo." Ferdinand "Pierrot Le Fou" Griffon

Esse filme marca o início de uma nova fase na carreira de Godard. Na época de Alphaville, o tom político do filme era uma exceção até o momento entre seus filmes, aqui é o início de uma nova fase onde o diretor se mostrava mais preocupado politicamente. Assim como Godard também abandona o preto e branco de seus filmes, com algumas raras exceções anteriores como O desprezo, e passa a fazer filmes coloridos e em widescreen. Um novo Godard no visual mas não no conteúdo.
Ferdinand Griffon é casado com uma mulher italiana rica e tem dois filhos. Um dia, eles estão saindo para jantar quando chega a babá, Marianne Renoir, que parece conhecer Ferdinand. Depois da festa, Ferdinand a leva para casa e a dúvida se dissipa. Eles se conhecem e a partir desse momento eles não pretendem mais se separar. No apartamento dela onde estão, há um cadáver que ela parece ter matado. Eles devem fugir para escapar. É onde o filme ganha os contornos absurdos que dão seu tom.
Como dito nas vezes anteriores, Godard não abandona suas experiências no cinema, nem deixa de ser audacioso. Ele sabe como os filmes funcionam. Assim como ele sabe que em um filme, qualquer coisa pode acontecer.E acontece. Os dois fogem em um carro roubado que dirigem até mergulhar com ele no mar. Depois moram isolados em uma ilha deserta até ficarem entediados um com o outro, até que por fim são encontrados por gansgters que querem um dinheiro de volta.
Mas a história do filme não parece interessar tanto assim Godard. A relação entre o casal é que importa. Apesar dos protestos, Marianne frequentemente o chama de Pierrot Le fou, e todas as vezes ele a corrige dizendo que seu nome é Ferdinand. Eles se amam mas não apenas isso, a relação deles é quase real, assim como eles também se entediam como qualquer casal em um determinado ponto de um relacionamento. "Você deveria acreditar em mim. Eu te amo do meu jeito.", ela diz.
Novamente o casal é interpretado por Anna Karina e Jean-Paul Belmondo, seus atores preferidos, e os dois interpretam brilhantemente esse filme non sense do diretor. Há uma cena, quando eles estão pensando em fugir, que ela canta para ele. É uma cena linda até que a cena do corpo é revelada, mas mesmo com o corpo lá eles continuam conversando como se nada estivesse acontecendo de anormal. É como se fosse uma cena comum. Por isso não estranhamos quando ele abandona sua mulher e filhos para fugir com essa mulher.
Uma das poucas cenas "normais" do filme acontece durante a festa. Um diretor de cinema conta sobre como quer rodar um filme de ação na França. Os seus relatos sobre o filme são mais normais que qualquer coisa que aconteça na película. Do que qualquer coisa que até mesmo aconteça durante a festa ao redor deles. Talvez seja a forma de dizer que os filmes devem fugir da realidade. No caso, este filme foge da nossa realidade. O diretor contando uma história dentro do filme,  foge daquela realidade e assim se aproximando da nossa.
De qualquer forma, esse é um dos últimos grandes marcos de Godard. O próprio diretor reconheceu que essa foi uma das últimas vezes que ele criou uma obra desse tipo. "Depois desse filme, ficou uma sensação de que não havia mais nada para fazer.", ele declarou em uma entrevista. Assim começou a nova fase de Godard. E sempre fazendo barulho.

sábado, 28 de agosto de 2010

ESPECIAL GODARD: UMA MULHER É UMA MULHER


NOTA: 9.
"Não sei se é uma comédia ou um drama, mas de qualquer jeito é uma obra-prima." Angela

Logo depois de sua estréia sensacional, Godard realizou seu filme seguinte estrelado por sua esposa, Anna Karina, Jean-Claude Brialy e novamente Belmondo (que ainda repetiria a parceria outras vezes). Aqui, o filme é declarado como um musical, mas em nada lembra os tradicionais musicais americanos, a próxima mú. E com todo o respeito a sica no filme é usada para o pastiche. Karina que me perdoe, mas sua cena cantando no clube onde trabalha não tem nada de memorável. A atriz encontraria mesmo suas cenas memoráveis em seu próximo filme, Viver a vida, próximo filme do diretor que compõe esta lista.
Karina é Angela, uma stripper que mora com seu namorado, Émile (Brialy). O filme insinua que os dois não são casados, apesar de viverem como tal. Um dia ela chega de seu trabalho e avisa que quer ter um filho. Ele não quer e ela quer. O amigo dele, Alfred (Belmondo), não se incomodaria nem um pouco de engravidá-la. Na verdade, Alfred não esconde nem um pouco que cobiça a mulher do amigo, e ela chega a se aproveitar disso para colocar ciúmes em seu namorado.
Godard declararia que este seria seu "primeiro filme de verdade", como se Acossado fosse uma prévia do que estava para vir. Com certeza ele alcançou resultados tão bons quanto seu primeiro filme em filmes posteriores, mas não foi aqui. As coragens narrativas de Godard ainda estão aqui. Algumas até mesmo são ótimas. Aqui ele já começava a dominar melhor as técnicas narrativas do cinema. A maior prova disso são as cenas filmadas no interior do apartamento do casal. Somente Godard saberia filmar como Godard.
Talvez o sucesso repentino tenha subido a cabeça do diretor. Talvez ele tenha ficado muito pretencioso. De qualquer forma este ainda é um grande filme. E se isso apenas não conta, este é um grande filme de GODARD, e isso deve contar muita coisa. Ainda que tenha suas falhas, é um filme de narrativa maravilhosa. Não tem a perfeição de outros trabalhos do diretor, mas esses detalhes devem contar para muita coisa.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

ESPECIAL GODARD: ACOSSADO

Quem acompanha o site há algum tempo, sabe que costumo fazer algo diferente para comemorar uma "data especial". Foi assim na postagem de número 100 e se repetiu na postagem que comemorava um ano de blog. A ocasião agora é a chegada da postagem de número 200. Na verdade, esta será dividida em 10 partes. Estamos na postagem 191, e a 10ª parte comemorará a postagem  200, sendo um especial dos 10 melhores filmes, na minha opinião, do diretor francês Jean-Luc Godard. Como tenho observado, muitos conhecem de nome mas poucos realmente viram seus filmes. Quem quiser começar a ver, segue um pequeno roteiro que poder ajudar a conhecer este maravilhoso, e revolucionário, diretor.
Também aproveitando a data, alterei algumas coisas no blog. Além do visual mais claro, embaixo de cada postagem os leitores podem marcaram se gostaram ou não da resenha, ou se simplesmente  a acharam inútil. Assim, vamos tentando tornar o blog cada vez melhor. Por isso, quem quiser pode usar a parte de comentários para opinar, dar sugestões ou críticas. Obrigado a todos que acompanham.


NOTA: 100.
"Não é preciso mentir. É como poker, a verdade é melhor. Os outros vão pensar que ainda está blefando, então você vence." Michel Poiccard

Foi nos anos 1960 que estourou um importante movimento cinematográfico mundial: a nouvelle vague francesa. Os diretores eram críticos de cinema que escreviam para a revista Cahiers du cinéma e contava com Truffaut, Chabrol entre outros. Godard era o mais novo, seja em idade quanto em experiência de cinema. Como os outros da "nova onda", ele amava o cinema americano, tanto que resolveu fazer um, só que acabou sendo melhor do que qualquer filme americano que estava sendo feito na época.
A história contada é a relação entre Michel (Jean-Paul Belmondo) e uma americana expatriada (é comum a presença de americanos em seus filmes) , Patricia (Jean Seberg). Ele é um ladrão de carros e ela vende jornais na rua. Em um de seus "trabalhos", Michel mata um policial e acaba sendo procurado pela polícia. Conforme o filme vai se desenrolando, vemos como o cerco se fecha ao seu redor cada vez mais. Os dois se juntam pelo desejo que ambos têm de partir de Paris. De ir para um lugar onde eles possam ter um novo começo.
O que eles têm em comum? Uma incrível paixão por eles mesmos. Raramente o cinema viu personagens tão cínicos em sua história. Em uma determinada parte Michel diz "Quando estamos juntos, eu falo de mim e você de você, quando deveríamos falar de nós." Eles são amorais e não amorosos, também inconsequentes como um casal de adolescentes. Eles tem aquela da coisa da juventude. Michel se envolve em duas mortes, e em nenhum dos casos a arma pertencia a ele. Aconteceu de nesses momento críticos, ele ter uma arma. Em um caso achada, em outro emprestada.
Michel é claramente inspirado nos papéis que Bogart interpretava. Em frente do espelho ele fica sempre tentando imitar as caretas que fazia nos filmes. Sempre de chapéu e um cigarro no canto da boca. Ele somente tira um cigarro para colocar outro aceso. E a repetição da marca de Bogart: passar o polegar por cima dos lábios. Então, basicamente o que Godard fez foi transformar o personagem policial de Bogart em diversos filmes e transformá-lo em um vilão. O resultado é maravilhoso.
Esse é o trunfo de Godard. Não é a história, é como ele a conta. Se comentei na resenha anterior sobre as coragens narrativas de Resnais, não posso deixar de declarar que Godard foi um dos mais corajosos. Seus cortes rápidos, seus cartazes e letreiros eletrônicos inseridos no filme que deixam pistas para a platéia do que vai acontecer. Tudo no filme tem um cheiro de novo e moderno, tanto que até hoje ele pode ser visto e apreciado como se não tivesse envelhecido.
Lembro que escreveram que antes o cinema só tinha conhecido dois grandes momentos revolucionários: O nascimento de uma nação (D. W. Grifith) e Cidadão Kane (Orson Welles). Godard estava, na época, protagonizando o terceiro. Era o início do cinema moderno. Desde Kane nenhum filme tinha influenciado tanta gente no cinema. Godard reverenciava o cinema americano e depois o cinema americano reverenciaria Godard, no final dos anos 1960, especialmente com Uma rajada de balas.
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