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terça-feira, 31 de agosto de 2010

ESPECIAL GODARD: ALPHAVILLE


NOTA: 9.
"Homens do seu tipo vão logo se tornar extintos. Você vai se tornar algo pior que morto. Vai se tornar uma lenda. "Professor Von Braun

Esta foi a primeira incursão do diretor na ficção científica, mas lembrando que o diretor sempre procurava manter seus orçamentos modestos depois da empreitada de O desprezo. Então, nada de grandes efeitos especiais e visual futurístico. Apesar do tema, este continua sendo um filme de Godard. Novamente ele conta com uma presença americana, Eddie Constantine, ator de filmes B de Hollywood e sua garota-símbolo, Anna Karina, para contar a história.
Constantine interpreta Lemmy Caution, uma espécie de espião que vai para a cidade de Alphaville pra cumprir uma missão de eliminar ou capturar o Professor Von Braun. O personagem Caution é emprestado de uma série de filmes populares na França, sempre interpretado pelo mesmo ator. É como se Godard tivesse apenas dando sequência a uma série de filmes. Ele ainda dirigiria outro filme com o personagem em 1991, já o ator ficaria preso a esse papel pelo resto da sua vida.
Alphaville é uma das cidades mais estéreis e opressores que o cinema já viu. O professor Von Braun criou um computador que dita como todas as pessoas da cidade devem viver. Claro que computadores não entendem de emoções, então todas as emoções são proibidas. Em uma cena, um homem pergunta se a personagem de Anna Karina, a filha de Von Braun está chorando, ela responde que não pois é proibido. Em todo lugar há uma bíblia, que na verdade é um dicionário que é constantemente atualizado. Todo dia ele tem palavras cortadas que foram consideradas proibidas.
Vale lembrar que Godard ainda não era o radical político que se tornaria mais tarde, por isso esse filme foi selecionado. É o filme mais político do diretor antes de chegar na fase realmente política. O personagem Caution está constantemente contra a política daquele lugar. "Nunca me tornarei um de vocês" ele exclama, e se vira contra tudo que aquele lugar representa. Talvez por isso o nome do professor pareça tão alemão. E também não por acaso somente as pessoas de fora achem que há algo de errado, os moradores não tem reclamações.
Infelizmente não se trata de um dos pontos altos da carreira. Faltam aquelas cenas maravilhosas que nos acostumamos a ver em seus filmes. Aqui, a única cena realmente marcante é quando Caution observa toda uma multidão de pessoas que ficam vendo execuções de pessoas que agiram de maneira "ilógica", como chorar no enterro da esposa e coisas do gênero. Tirando essa cena, não há outras que façam com que o filme seja tão marcante quantos os outros. Um detalhe importante a observar é a capacidade de transformar locações em Paris em um cenário futurista. Quase irreconhecível. Uma verdadeira mostra de que se pode fazer muito com pouco.

domingo, 29 de agosto de 2010

ESPECIAL GODARD: VIVER A VIDA

NOTA: 100.
"Um momento de pensamento só pode ser captado por palavras." O filósofo

Este talvez seja o melhor filme de Godard. Muitos vão discordar. Ou por não terem gostado do filme ou por simplesmente gostarem mais de algum outro filme dele. Susan Sontag chegaria a declarar que este filme é a melhor, mais maravilhosa e bonita obra de arte que ela já tinha presenciado. Alguns dizem que o diretor deveria procurar se aprofundar mais em assuntos mais relevantes, eu gosto de ver como ele consegue pegar assuntos que as pessoas podem considerar banais e realizar filmes maravilhosos. Como já disse anteriormente, não é a história, mas como ela é contada.
Novamente Anna Karina estrela o filme. Dessa vez ela interpreta Nana, uma típica parisiense. Exceto que não há nada típico em Nana. Anna Karina é uma mulher belíssima que já chamaria atenção normalmente. O filme abre com closes do rosto da atriz. Virada para um lado, de frente e virada para o outro lado. Tal qual os criminosos têm suas fotos tiradas. Cada vez que o ângulo muda, a música entra e antes que a tomada termine ela é abruptamente cortada. Talvez seja a maneira de dizer que a música não consegue fazer jus a beleza daquela mulher. Ou que talvez não possa lhe dar profundidade.
Ela começa o filme conversando com um homem. Pela conversa, descobrimos que ele é marido dela e que eles têm uma filha. Eles não estão mais juntos. Ela gosta dele? Se interessa pela filha? O filme não diz nada sobre isso. Se ela se importa não demonstra. Há apenas um cena em que ela demonstra sentimentos. É quando ela vai assistir ao filme Joana D'Arc e assiste a cena onde a protagonista está sendo julgada pelos homens da igreja. Talvez seja mais um caso onde a protagonista se importa apenas com ela mesma e se identifica com aquela cena.
Ela nunca parece ter dinheiro. Aparece trabalhando em uma loja de discos, mas pede a uma colega dinheiro emprestado por estar dura. Ela volta para o apartamento mas a senhoria não a deixa entrar. Tudo que ela faz é pago por homens. Jogar, ir para o cinema, cigarros e beber. Ela acaba se acostumando com isso. Ela anda por uma rua com prostitutas e um homem lhe convida. Ela aceita. Na França, a prostituição também é chamado de "a vida", o que pode explicar o título do filme.
Acompanhado de Raul Coutard, seu diretor de fotografia, Godard acompanha a vida dessa mulher com um ar de voyerismo. A câmera não é apenas para gravar imagens, a câmera é uma presença. A presença de qualquer pessoa que queira acompanhar a vida daquela mulher. Somo nós que a estamos acompanhando. Dizia-se que ele "girava a câmera em 360º, duas vezes, e depois a movia na direção oposta só pra mostrar que sabia o que estava fazendo". Aqui é Godard mostrando que sabe o que está fazendo. É só observar a cena onde Nana dança em volta de mesas de sinuca e comprovar. Mais uma obra de gênio.
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