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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O LEGADO BOURNE - THE BOURNE LEGACY


NOTA: 6.
- Jason Bourne foi apenas a ponta do Iceberg.

A história de Jason Bourne era a de um homem em busca do seu passado. Ao final do terceiro filme ele descobre mais do que gostaria e encerra seu ciclo. Agora, sem poder contar com a presença de Matt Damon, a solução era mostrar que Bourne não era o único a participar dos experimentos, o que todos que assistiram os filmes anteriores já sabiam. Afinal, Bourne foi caçado por um bom número deles em sua jornada.
O que acompanhamos agora é Aaron Cross, interpretado por Jeremy Renner. Aaron não tem amnésia nem está com peso na consciência ou coisa do gênero, a busca dele é para conseguir drogas. Não do tipo  ilegal e que dá onda, é uma droga muito melhor que faz com que ele mergulhe nu em lagos congelados no Alaska, atravesse montanhas sem qualquer equipamento e até lute contra uma matilha de lobos durante a noite.
Assim como Bourne, Cross é um agente do tal programa da CIA que recruta combatentes. Só que descobrimos agora que o treinamento é muito mais que especial, ele envolve também alteração do genoma humano fazendo com que desenvolvam grande agilidade física e uma inteligência acima do normal. 
O filme começa de forma muito confusa. Durante um bom tempo, acompanhamos Cross na montanha. O que ele fazia lá eu não sei dizer. De alguma forma, faz parte do treinamento. Eu confesso que passei pelo menos 30 minutos do filme sem entender qualquer coisa que esteja acontecendo no filme. Mas o que mais me incomodou é que demora muito tempo sem que ninguém o chame pelo nome. Será que Renner interpreta o mesmo personagem que Matt Damon interpretou? Somente quando um poster com a foto de Damon dizendo que Bourne é procurado é visto na TV eu consigo ter certeza de que se trata de um personagem diferente.
Depois disso, o filme gasta uma grande parte do tempo em uma sala de comando da Inteligência, mais especificamente: uma sala de comando do tal do Programa com uma grande tela, muitos computadores e equipamentos de comunicação que fazem com que tenham acesso a qualquer câmera de vigilância de qualquer parte do mundo. É nessa sala que vemos os grandes figurões do projeto, que incluem veteranos interpretados por Scott Glenn e Albert Finney e que neste filme está sendo chefiado por Edward Norton. É nessa sala que decidem terminar o programa dando uma pílula amarela para os participantes que faz com que todos caiam mortos. 
Por sorte, Cross não toma a pílula. A estratégia para eliminá-lo é um míssil que ele consegue ludibriar e, depois de lutar com mais lobos (ele acredita que sejam os mesmos), chega até Marta Shearing (Rachel Weisz), que faz parte da pesquisa de alteração do genoma. Eles unem forças para ir até Manila, nas Filipinas, onde os remédios são produzidos. 
Provavelmente porque o filme pertence a franquia Bourne, é necessário incluir cenas de ação, mas infelizmente elas não acontecem de forma orgânica como acontecia nos filmes anteriores. E pior ainda, as três grandes cenas de ação são cópias de cenas que aconteceram antes na franquia, incluindo uma perseguição de carros, de motos e pelos telhados da cidade. Qualquer semelhança não é mera coincidência. A última sequência, da moto, parece durar duas vezes mais do que deveria, e sua edição é falha, o que somente faz com que pareça mais confusa do que já é.
Na verdade, a cena final parece ser uma metáfora do próprio filme: dura mais tempo do que deveria, é confusa e termina de forma insatisfatória. Claro que o final do filme já abre espaço para continuações. Se o nome Bourne continuará aparecendo eu não sei. Afinal, como acompanhamos durante todo este filme, ele ainda está a solta. Só podemos esperar que o próximo seja melhor, com ou sem Matt Damon.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

CONTÁGIO - CONTAGION



NOTA: 8.
- Hoje é um péssimo dia para ser um macaco Rhesus.

Este é um drama realista e nem um pouco voltado para o lado do espetáculo, cinematograficamente falando, sobre uma epidemia global. Seria uma simulação do que aconteceria se um novo vírus que se espalha pelo ar surgisse e se alastrasse de forma muito rápida por todo o globo. Logo que imediatamente, ficamos alerta aos perigos de um contágio: tela negra e uma tosse é ouvida. Quando vemos um garçom pegando as moedas de um cliente já sabemos que algo está em movimento.
De certa forma, a história já é familiar. Início do contágio, mapas alarmistas do vírus se espalhando pelo mundo inteiro, a corrida para a produção de uma vacina e a distribuição para a população. O problema é que o vírus aqui desafia toda a lógica que os médicos conhecem sobre doenças: ele se espalha mesmo após isolamento dos doentes e parece também resistir às vacinas produzidas. A habilidade deste filme está em mostrar a vida de alguns personagens chaves dos filmes e a interação entre outras pessoas. 
Há a família Emhoff, que rapidamente parece começar a se desintegrar. A tosse que começa o filme é de Beth (Gwyneth Paltrow), que está voltando de Hong Kong. Logo após a sua volta, seu filho morre, e não demora muito para que ela siga pelo mesmo caminho. Apenas seu marido, Mitch (Matt Damon) sobrevive na casa, por ser imune a esse vírus. No final do filme, vemos uma breve explicação de onde tudo pode ter começado, mas o mais importante é observar que pode atravessar continentes em um único dia.
Os dias vão se passando rapidamente e novos personagens vão surgindo num piscar de olhos. O chefe do CDC (Centro de Controle de Doenças) é Cheever (Laurence Fishburne), que designa Mears (Kate Winslet) para tentar controlar a doença e descobrir onde ela pode ter se originado. De outra organização em Geneva, temos Orantes (Marion Cotillard) que é uma investigadora, e em um laboratório há a Hextall (Jeniffer Ehle) que está se sentindo frustrada pela demora que está se dando para aperfeiçoar a vacina para que seja testada em humanos. Para encerrar a galeria de astros que o filme possui, temos Jude Law como um blogueiro que se preocupa em espalhar o pânico para seus leitores desde que isso aumente a quantidade de visitas ao seu blog. Infelizmente, seu personagem parece um pouco desnecessário à história, enquanto talvez tivesse melhor efeito se soubéssemos um pouco melhor como o vírus funciona.
O filme é muito bem filmado e habilmente dirigido. A presença de grandes astros ajuda muito para a dramaticidade, pois não temos muito tempo para conhecermos e nos importarmos com eles. O filme mantém também um ritmo interessante: começa a mil por hora e não procura diminuir o ritmo em momento nenhum. É um relato íntimo e que parece ser preciso no que sobre seria se uma nova epidemia se espalhasse, e é o melhor filme que já assisti sobre este tema.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

ALÉM DA VIDA - HEREAFTER


NOTA: 8.
- Uma vida que se trata apenas sobre morte, não é realmente vida.

O diretor Clint Eastwood envelhece mas em nenhum momento mostra sinais de que está pensando em parar (ou mesmo reduzir) seus trabalhos. A maior prova é que mesmo fazendo um filme que parece simples, ele o começa com um tsunami, e mesmo que termine com um beijo a cena inicial mostra a vitalidade de suas realizações. Outra mostra é na escolha do tema, que o diretor até o momento não havia feito: a questão da vida após a morte.
E morte não é um assunto estranho a ele. Seja na época em que era "apenas" (sem desmerecer seu trabalho) ator nos filmes de faroeste de Sergio Leone ou mesmo quando sentou na cadeira de diretor onde o tema também sempre esteve muito presente em suas obras. Talvez por isso agora a inclinação de procurar o que vem além.
Para isso, ele nos mostra três núcleos diferentes em países distintos. Nos EUA, George Lonegan (Matt Damon) é um homem que consegue "falar" com as almas dos mortos. Para ele é uma maldição mas as pessoas insistem que ele o faça. Ele já ganhou muito dinheiro com isso mas agora se contenta com seu salário de operário e tentar levar uma vida normal.
Em Londres, o jovem menino Marcus sente falta de seu irmão gêmeo que foi subitamente tirado de seu lado e deseja saber se seu irmão irmão pode lhe dizer o que fazer, como sempre fez quando estava vivo. Em Paris, Marie Lelay é ressuscitada depois de morrer afogada vítima do citado catástrofe. Obviamente, os três personagens vão se encontrar ao final do filme, ainda que de maneira pouco convincente e suas vidas vão se ligar.
O importante, porém, é observar a cuidadosa preparação até o encontro. Cada personagem é esmiuçado para sabermos suas motivações e objetivos. Lonegan evita tocar nas pessoas para não "acessar" informações indesejáveis. Ele conhece uma mulher e sabe deve manter seu segredo, porque tudo pode mudar quando ela souber a verdade. Marie se afasta de seu trabalho da televisão para começar a escrever um livro sobre política, mas rapidamente descobre que deve escrever sobre sua experiência de quase morte. Parece que somente enfrentando a morte, os personagens poderão seguir com suas vidas. E justamente os vemos seguir todas as suas trajetórias sem pressa alguma. Quando o momento chega, os conhecemos bem o suficiente para nos importarmos com a sequência.
A grande vantagem de ter Eastwood no comando desse filme, é a certeza que o filme não se tornará planfetário ou melodramático. O diretor e seus atores mantém um nível agradável sem cair no choro ou pieguice. Não se trata de acreditar ou não, mas de assistir um filme inteligente sobre o que acontece depois que nos formos. Tanto é que não há provas reais desses contatos. Em determinado momento, fica difícil saber se o personagem de Damon realmente está se comunicando com alguém ou apenas querendo agradar a pessoa. Para mim, a questão é que não importa se é real ou não. Interessa que é um bom filme.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

BRAVURA INDÔMITA - TRUE GRIT


NOTA: 9,5.
- Você tem que pagar por tudo nesse mundo, de um jeito ou de outro. Não tem nada grátis a não ser a graça de  Deus.

Assim que Jeff Bridges surge como Rooster Cogburn nós vemos a diferença do seu personagem pelo interpretado por John Wayne na versão original. E não se trata apenas de usarem o tapa-olho em olhos diferentes (Wayne usava no esquerdo e Bridges usa no direito), trata-se de termos duas versões totalmente diferentes desse mesmo personagem. John Wayne era John Wayne como sempre foi. Bridges entrega uma versão totalmente diferente. Nem melhor, nem pior. Mas a caracterização de Bridges, que mais parece um mendigo, se aproxima mais do personagem. Pelo menos na minha humilde opinião.
Onde o filme ganha é com seus outros personagens, e em especial com Mattie Ross interpretada aqui por Hailee Steinfeld. Pra começar, ela realmente parece ter (e realmente tinha) 14 anos. Mas a melhoria vai além da aparência física. Steinfeld, ao contrário de Kim Darby, não tenta fazer a garota adorável. Ela sabe que seu personagem deve ser irritante, além de extremamente obstinada para levar seus negócios adiante. O engraçado é que mesmo ao lado de grandes nomes do cinema, é ela quem realmente se destaca no filme. Uma atuação que lhe valeu uma indicação (perdeu para Melissa Leo em O vencedor). Ninguém fica a mesma pessoa depois de encontrar com ela. Melhor ainda ficou La Boeuf que aqui é interpretado por Matt Damon. Agora sim o personagem realmente parece indispensável para a trama e as falas ganharam significado.
Os irmãos Ethan e Joel Coen se aventuram pela primeira vez no gênero do faroeste e levam sua habitual excelência na bagagem. Ainda que este seja um filme assinado por eles, não parece realmente um filme dos Coen (a não ser pela ótima qualidade). Falta algumas das características que compõem seus filmes, mas em compensação, continuam tendo o mesmo capricho nos diálogos e na escalação do seu elenco, como já foi dito. Para completar, a fotografia de Roger Deakins é a cereja do bolo na produção. Ele já tinha feito uma fotografia nesses moldes com os diretores em Onde os fracos não têm vez e outro faroeste de grande beleza: O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford. E no caso aqui, uma beleza que somente o faroeste é capaz de produzir.
E essas não são as únicas diferenças. A história sofre algumas alterações lá e cá, e no filme original o final é mais feliz para Mattie, diferente do que acontece no livro e aqui. Os Coens não são conhecidos por adocicar a vida de seus personagens e aqui nada muda. O tom está muito mais para o livro do que para o filme de 1969. Não é o trabalhos mais inspirado dos diretores, mas com certeza é um trabalho muito interessante. E quem sabe um trabalho que possa incentivar a produção de novos faroestes de igual calibre? A única pena é que justo os dois pareçam tão conformistas em sua primeira incursão neste gênero. Nada que atrapalhe o prazer de assistir (ou reassistir) esta bela história.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

OS AGENTES DO DESTINO


NOTA: 8.
- Tudo que eu tenho são as escolhas que eu faço, e eu escolho Elise. Aconteça o que acontecer.

Alguns filmes levantam questões interessantes e intrigantes para contar uma história. Matrix se valeu desse conceito para contar um sci-fi com toques de kung-fu e muita ação. Aqui, o diretor (e roteirista) George Nolfi usa o mesmo conceito, mas saem as correrias, tiroteios e pancadaria e entra uma história romântica. Tanto que escolhi esse poster acima ao invés do principal que vem sendo divulgado com o casal correndo. Este não é um filme de ação.
O diretor escreveu o roteiro baseado num conto de Philip K. Dick, o mesmo autor dos contos que deram origens a filmes como Blade runner e Minority report. Como de costume, o autor levanta questões interessantes misturados com fatos surreais. Aqui, a questão interessante é um debate sobre o livre-arbítrio e destino.
Matt Damon é um político chamado David Norris. No dia da eleição, ele perde e se prepara para dar seu último discurso. Ele entra no banheiro, que acredita estar vazio, e ensaia o que vai dizer. Acontece que escondida no banheiro, estava Elise (Emily Blunt). Ela está lá porque foi pega invadindo um casamento e está agora se escondendo para não ser pega pela segurança. Os dois se conectam imediatamente e se beijam antes que ela tenha que sair correndo. O encontro anima tanto Norris, que ele faz um discurso improvisado que é o melhor de sua campanha.
No dia seguinte, num curto intervalo de tempo, ele (re)encontra sua nova paixão no ônibus e logo depois descobre, por acidente, a existência de uma espécie de grupo de "anjos" no escritório do seu publicitário. Todos no prédio estão paralisados e esses "anjos" estão fazendo alguma coisa com ele. Ele tenta fugir mas acaba pego. Eles decidem contar a verdade, que estão lá para fazer pequenos ajustes nas pessoas para que elas continuem seguindo, mesmo sem saber, um plano de uma entidade superior. Ao que parece, não temos o direito do livre-arbítrio. Quando eles nos deram realmente a chance de escolher fizemos guerras e outras desgraças, por isso agora eles nos encaminham para o bom caminho. Para Norris ficar no caminho, não deve revelar a existência deles para ninguém e nem deve vê-la novamente.
Ao contrário de outros filmes onde vemos bons anjos, esses aqui não estão de brincadeira. Se não obedecer, Norris será "resetado", terá toda sua mente apagada. E eles também não medirão esforços para alterar várias coisas para que Norris não a encontre e continue no plano. O único que parece se incomodar com isso é o anjo Harry (Anthony Mackie), que acaba revelando muitas coisas a ele.
Damon e Blunt dão interpretações tão boas, que ficamos realmente torcendo por eles. Realmente parecem feitos um para o outro, então, por que querem mantê-los separados? Nós torcemos para eles porque queremos que fiquem juntos. As performances são tão boas que acabamos perdoando certos deslizes do filme. 
O filme, porém, não deixa de ter seus defeitos. O principal é não se aprofundar nas implicações das questões que levanta. É um conflito entre o destino e as escolhas que fazemos. Se tudo está acertado, que diferença faz que decisão tomamos? Eles mesmos dizem que não podem cuidar de todos todo o tempo. O que aconteceria se alguém, inadvertidamente fizesse algo fora dos planos? Quando pedem para não vê-la, não estariam apelando para o livre-arbítrio dele? Apelando para que escolhesse não a ver novamente?
Se fosse um filme mais corajoso poderia ser excelente, mas ainda assim é um bom filme. E o melhor romance que assisti nesse ano.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

PROCURA-SE AMY


NOTA: 9.
- Eu te amo e não é como amigo. Você é a soma de tudo que eu sempre procurei em um ser humano. Eu não aguento mais estar do seu lado sem poder te abraçar. Eu não posso conversar com você sem poder expressar meu amor por tudo que você é. Não existe outra alma que me faça metade do homem que eu sou com você, e eu arriscaria nossa amizade por uma chance de dar um passo adiante na nossa relação.

Depois de enfiar os pés pelas mãos em seu segundo filme, Barrados no shopping, o diretor e roteirista Kevin Smith parecia que ia colocar a carreira nos eixos. Fez este ótimo filme e o bom Dogma, os dois ainda naquele esquema de unir os filmes seja por situações ou personagens em comum. Pena que não durou muito.
De qualquer forma, aqui Smith se propõe a fazer o que ele é realmente bom: roteiro. Seu segundo filme provou que ele não é um diretor de primeira (e Tiras em apuros acaba de comprovar) e seu forte é realmente a construção de diálogos. O filme teria tudo para ser um comédia romântica boba, mas Smith a trabalha em camadas, cada camada aprofundando mais seus personagens, seus medos e receios.
Todos os personagens aqui trabalham com revistas em quadrinhos e se conhecem em um feira (algo parecido como uma Comic Con, mas menor). Nenhum deles fazem grandes selos como Batman ou Superman, mas dois deles parecem bem-sucedidos: Holden McNeil (Ben Affleck. Para quem lembra da resenha de Gênio indomável, aparece uma curiosidade desse nome) e Banky Edwards (Jason Lee), que escrevem sobre Jay e Silent Bob (creio que os únicos personagens que aparecem em todos os filmes, interpretados pelo próprio Smith e Jason Mewes). É lá que Holden conhece Alyssa (Joey Lauren Adams).
Desde esse primeiro encontro, fica claro que eles são feitos um para o outro. Ele se apaixona  por ela e ela... é lésbica. Apesar de ter um tom leve, o filme não é uma comédia rasgada. Smith entende uma coisa básica sobre o assunto: os amantes sofrem. Não é fácil se entregar assim para outra pessoa quando é correspondido, o que dirá quando não é. Quem já passou por isso sabe do que estou falando. O amor desses dois não é fácil. Não é uma linha reta. E aí está umas das forças do filme.
Tudo é levada a sério no filme. Mesmo os quadrinhos. Chega a tal ponto que quando um cara vira para Banky e diz que ele apenas copia os desenhos de Holden, ele simplesmente sai para a briga com o cidadão. E na mesma feira, um negro gay, Hooper X, puxa uma arma e atira contra a platéia para passar uma imagem de machão (ele é minoria da minoria, como ele mesmo diz).
Assim como Hooper é o responsável por uma das melhores falas do filme. Ele fala sobre como o caipira branco personagem de poster nazista, Luke Skywalker, quer livrar a galáxia dos negros representados por Darth Vader. O resultado é hilário.
Assim como as conversas sobre sexo, que são francas e abertas como velhos amigos falando as maiores barbaridades em uma mesa de bar, mas que não lembro lembro de ter visto no cinema a coragem de declarar com a mesma clareza. Podia parecer escrachado, mas não fica. Fica verdadeiro.
O casal protagonista me surpreendeu no filme. Ben Affleck convence em um personagem cheio de mudanças durante todo o filme. Talvez o resultado pudesse ser melhor, mas ele não compromete em nada o filme. Já Lauren Adams consegue passar por cima da sua voz irritante e mostrar uma personagem que pode ser ao mesmo tempo uma grande amiga ou uma ótima amante.
Dizem que Smith usou a relação com a própria Lauren Adams para escrever o filme. Como o próprio personagem de Affleck diz, "Dessa vez eu tinha algo pessoal para dizer". Parece que Smith tinha algo pessoal para dizer. Talvez por isso, esse seja um dos seus melhores filmes.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

GÊNIO INDOMÁVEL


NOTA: 8,5.
- Você não deve a si mesmo, deve a mim. Não me leve a mal. Você é meu melhor amigo, mas se em 20 anos você ainda estiver morando aqui, indo pra minha casa assistir jogos e ainda trabalhando em construções, eu te mato. Não é uma ameaça, é um fato. Você está sentado em um bilhete de loteria, premiado, só não tem coragem de retirar o prêmio.

Sabe quando você assiste um filme com Matt Damon ou Ben Affleck e aparece que eles ganharam Oscar. Bem, Damon até foi indicado pelo seu papel neste filme, mas a verdade é que nenhum dos dois ganhou o prêmio por atuação. O Oscar que eles tem é pelo roteiro que escreveram a quatro mãos deste. Quem saiu com a premiação por sua atuação foi Robin Williams, que entregou um de seus melhores trabalhos e quando quer faz papéis memoráveis.
Interessante é que um dos melhores papéis do filme cabe a Stellan Skarsgard como professor Lambeau. Um dos menos badalados. Ele é um dos maiores nomes da matemática, estudou a vida inteira e ganhou prêmios por seu trabalho. Tudo isso pra descobrir que um faxineiro que não tem metade da sua escolaridade consegue resolver problemas que ele nunca irá conseguir. E com a maior facilidade. Mais doloroso ainda deve ser ver alguém com essa capacidade jogar tudo fora.
Para desafiar seus alunos, ele lança um problema num quadro, um problema que ele mesmo demorou dois meses para resolver. Na manhã seguinte, o problema está resolvido no quadro. Como nenhum dos alunos diz quem resolveu o problema, ele lança um segundo ainda mais complicado como forma de retaliação. Um que  ele mesmo levou mais de um ano para resolver. No dia seguinte pega Will resolvendo o problema no quadro.
Automaticamente fica claro que Will é um gênio da matemática, e Lambeau consegue livrá-lo da prisão de agressão a um policial em troca de resolver problemas juntos e análise uma vez por semana. Depois de passar por vários profissionais, Lambeau convence seu antigo colega de quarto da faculdade, Sean (Robin Williams), a orientar o garoto. O próprio Sean parece ser um talento que acabou arruinando a própria vida depois da morte da esposa.
O fato de Will ser um gênio não o torna muito diferente das outras pessoas. Ele tem amigos como Chuckie (Ben Affleck), Morgan (Casey Affleck) e Billy (Cole Hauser), e uma namorada, Skylar (Minnie Driver). Todos eles estão dispostos a ajudar Will. Todos sabem que ele tem talento e que somente precisa de coragem para vencer na vida.
A única coisa que o impede de ser tudo que ele pode ser, é ele mesmo. Violência doméstica e abandono o fizeram criar uma proteção contra todas as pessoas. Chuckie percebe isso, Skyler também. E essa se torna a maior questão a ser confrontada durante as sessões de terapia com Sean. Intelectualmente, este é o único que o desafia.
O filme tem a estrutura previsível. Sabemos o que vai acontecer, mas isso não importa muito. O que interessa são os indivíduos e como eles se relacionam. Tudo feito com grande sutileza. Há uma cena que Skylar diz para Chuckie que quer conhecer os irmãos de Will. Chuckie sabe que Will não tem irmãos. Percebemos que ele reage mas nada diz. Talvez por isso, ele se permita ser tão franco com Will. Alguém naquela relação tem que ser sincero.
Um belo filme com uma direção inspirada. Quando Gus Van Sant (o diretor) erra, erra feio, mas quando acerta o trabalho é ótimo. A dimensão que ele dá para os diálogos fazem o filme funcionar perfeitamente. A cena de discussão entre Will e Skylar não poderia funcionar melhor. É a valorização do texto. E este é um belo roteiro. Por isso seus atores foram para o estrelato depois disso. Com méritos.

OBS: Chukie vai para uma entrevista se fazendo passar por Will. O nome da empresa é Holden & McNeil. Holden McNeil é o nome do personagem de Affleck em Procura-se Amy.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

INVICTUS


NOTA: 8.
"E eu agradeço a Deus, por minha alma inconquistada, sou mestre do meu destino, capitão da minha alma." Mandela, recitando o poema que dá nome ao filme.

Depois de ver o filme, a maioria deve pensar que a escolha do diretor Clint Eastwood para este filme é no mínimo inusitada. Acostumado a contar histórias de vingança, aqui ele conta uma história de superação através do esporte que ajudou a unir uma nação. Mandela, mesmo depois de sair da prisão, não tem esse instinto de vingança. Diferente de muitas pessoas que trabalham para ele.
A história começa logo depois da eleição de Mandela. O país se encontra totalmente dividido entre negros e brancos. Se antes os negros não estavam satisfeitos com a presidência, agora são os brancos que não estão satisfeitos. Um treinador de rúgbi declara a seus atletas, todos brancos, que o país está largado aos cães enquanto do outro lado da rua, num campo de terra batido, a outra parte da população comemora a eleição de "um deles".
Caminhando na rua, Mandela lê no jornal acima de uma foto dele: "Ele pode vencer uma eleição, mas poderá governar um país?". "Uma pergunta pertinente.", ele diz. Mandela deve governar um país cuja uma parte da população não o quer lá. Essa é a sua principal preocupação, não por conta da sua imagem ou de sua popularidade, mas porque aquilo mostra a desunião de seu país. Antes de tudo ele quer uma única nação.
Para isso ele conta com a ajuda do capitão do time, Pienaar, que serve como intermediador entre os desejos de seus comandados e do presidente. Mandela chega a entregar para o capitão, um poema chamado Invictus, que o ajudou a enfrentar todos os anos que passou na prisão. Então a África do Sul passa de um time desacreditado que chegou a final do campeonato mundial para disputar contra um time tido como muito superior.
Claro que no final, o filme fica entregue aos jogos, o que é uma pena. Quer dizer, estamos falando de um personagem praticamente mítico, que é Mandela. Praticamente um santo. Passou 27 anos na prisão e saiu para liderar o país que o aprisionou. O que ele faz? Lidera o país com uma igualdade que chega a assustar. Realmente, Morgan Freeman era o homem certo para esse papel. Ele transmite uma paz e tranquilidade que saem da tela.
Esse é o único porém do filme. Estamos diante de uma situação que podia ser o suicídio político desse homem maravilhoso, e temos que aguentar um jogo desinteressante. Preferia mais Mandela e menos rúgbi, mas ainda assim é um bom filme de assistir.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O DESINFORMANTE! (THE INFORMANT!)


NOTA: 8.
"Nós somos a 44ª empresa entre as 500 mais ricas. Você vai querer dizer pro meu pai como deixou a empresa cair de 44ª para 45ª? Vai, Mark?" Mick Andreas

Não é a primeira incursão do diretor Steve Soderbergh em fazer filmes baseados em histórias reais. Em 2000 ele filmou Erin Brockovich, onde pegou a então maior estrela de Hollywood, Julia Roberts, e fez um filme em que ela finalmente conseguiu seu reconhecimento como atriz (o papel lhe valeu um Oscar). O diretor foi indicado para direção, mas acabou perdendo para ele mesmo em Traffic. Agora o astro da vez é Matt Damon e sim, ele também consegue apagar sua aura estrelar e incorporar de forma brilhante o personagem, também real, Mark Whitacre, no que é provavelmente sua melhor atuação.
Seu personagem teve uma ascensão meteórica na empresa ADM, subindo de bioquímico até um executivo de alto escalão na empresa. Durante um crise com um vírus na produção da empresa, ele vai ao seu superior e diz que um empresário de uma empresa japonesa afirma que há um espião entre eles, e que por 10 milhões ele dirá quem é. Ao invés de aceitarem a extorsão, a empresa resolve chamar o FBI para investigar. O envolvimento dos federais faz com que Whitacre fique com medo, e ele acaba se tornando um informante do FBI sobre um esquema de fixação de preços entre empresas do mundo todo. Inculindo a ADM, claro.
Essa parte do filme, funciona como uma versão mais leve de O informante, filme de Michael Mann com Russel Crowe no papel principal. O FBI se impressiona com a prestabilidade do informante. Chegam a andar com uma foto dele para lembrá-los que é um homem comum. Um herói. O problema, porém, é que quanto mais se aprofundam na história, mas a história apresenta problemas, e que Whitacre é na verdade uma péssima fonte de informações. Mais fundo ainda, se descobre que é autor de crimes ainda piores que os da empresa. Não à toa, sua pena é três vezes maior que os envolvidos no escândalo.
Soderbergh conduz o filme de forma leve e divertida. Não é uma daquelas comédias de fazer morrer de rir, mas é bem divertida. Mais importante ainda, ele faz com que o filme em momento nenhum entedie a platéia. Boa parte pela atuação de Damon, claro. Sem contar que este conta ainda com outros ótimos atores. Especialmente Melanie Lynskey (a perseguidora de Charlie em Two and a half men) como sua esposa, e também Scott Bakula como o agente do FBI Shepard, que cuida do caso de Whitacre. Apesar das situações tão absurdas que são difíceis de dizer que são reais, o trio torna o filme totalmente fácil de ser acreditado.
Atualmente o Whitacre real foi libertado da cadeia e está trabalhando em uma empresa de alta tecnologia na Califórnia, onde ainda vive com sua esposa.
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