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quarta-feira, 27 de março de 2013

RUBY SPARKS: A NAMORADA PERFEITA


NOTA: 8.
- Eu não estou escrevendo sobre você. Eu escrevi você.

Anos depois do sucesso de Pequena Miss Sunshine, os diretores Jonathan Dayton e Valerie Faris voltam a aparecer com um filme que não fez tanto sucesso, mas que com certeza é muito interessante. No centro da trama, temos Calvin Weir-Fields (Paul Dano), um escritor que muito jovem escreveu um livro que todo mundo adora, mas que sofre de um bloqueio, não tendo lançado nenhum outro livro desde então.
Para sua sorte, Calvin não parece precisar escrever para sobreviver. Ou ele tem bastante dinheiro ou continua ganhando o suficiente com seu livro para se manter numa bela casa de dois andares com piscina e outras mordomias. Ele até visita um psicólogo para tentar sair de seu bloqueio ao invés de fazer o mais óbvio que seria sentar e escrever. Ele sequer parece se esforçar muito, como se estivesse esperando uma musa lhe trazer inspiração.
Para sua sorte, sua musa aparece e seu nome é Ruby Sparks (Zoe Kazan). Na verdade, não deveria ter escrito "aparece", e sim "materializa". Zoe é exatamente como Calvin escreveu em sua máquina de escrever. Ela tem a personalidade que ele descreveu e é exatamente da mesma forma fisicamente. Depois de ter escrito, ele acorda em sua casa onde mora sozinho e ela está na sua cozinha. Simplesmente acontece.
Ruby é exatamente o que Calvin deseja como sua namorada. Muito bom pra pra ser verdade? Não mesmo. Ela é uma pessoa totalmente normal. Real. Parece muito mais real do que inúmeras mulheres que vemos em filmes. Ele apresenta seu irmão que duvida que tenha realmente acontecido como Calvin descreveu. Ele vai até sua máquina de escrever e digita que ela fala francês fluente. Instantaneamente, Ruby começa a falar francês. Ruby foi sim materializada, e Calvin tem o poder de transformá-la a seu bel prazer.
Existem outros personagens interessantes que enriquecem a trama, como um amigo escritor interpretado por Steve Coogan, sua mãe (Annette Bening) e o amante dela (Antonio Banderas). Mas todos eles, apesar de interessantes, são meros coadjuvantes. A trama que realmente importa é a relação entre Calvin e Ruby. Sobre como ele tenta controlar sua personalidade e mudanças de humor escrevendo sobre ela, e como isso pode dar errado. Muito errado.
O filme pode ser sobre um escritor lidando com a sua criação. Sobre como ele pode ficar sempre tentado a fazer alterações para melhor se adaptar à sua história. Interessa é que o filme é intrigante e prendeu a minha atenção, me fazendo aguardar ansioso pelo final. E por mais que pareça fantasioso, talvez não seja. Pense em como você era anos atrás e veja como é hoje. Dificilmente você dirá que é exatamente a mesma pessoa. Assim como Ruby, estamos constantemente nos reescrevendo. O processo dela é apenas mais rápido para ser melhor perceptível.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A TODA PROVA - HAYWIRE


NOTA: 8,5.
- Você não deve pensar nela como um ser humano. Isso seria um erro.

As mulheres ganham cada vez mais espaço nos filmes de ação hoje em dia. Tanto espaço que já não é incomum vê-las como protagonista de grandes filmes do gênero. O que é incomum é ver uma lutadora de MMA (Artes Marciais Mistas) como a protagonista de um filme de Steven Soderbergh. Gina Carano ainda não mostra grandes qualidades como atriz, mas o diretor sabe como disfarçar isso muito bem. Mas aqui ela mostra que suas qualidades são agilidade, força e um verdadeiro talento para a luta.
A verdade é que mencionei as qualidades de Carano como atriz, mas pouco importa neste filme se ela sabe atuar ou não. Ao seu lado temos um elenco afiado, um roteiro com uma história bem interessante e uma direção segura como o diretor costuma entregar. Ela é Mallory Kane, que trabalha para uma estranha firma nos EUA que presta serviço para o governo fazendo o trabalho sujo. Em filmes como Missão Impossível, o governo contrata agentes que parecem não ter ligações governamentais. Aqui, parece que é mais fácil terceirizar o serviço.
Pra piorar as coisas, existem uma série dessas agências que ficam cruzando uma com as outras, e muitas vezes interferindo uma com as outras nos trabalhos. E claro que, num tipo de trabalho como esse, ela descobre que não deve (ou seria pode?) confiar em ninguém, já que os agente parecem trocar de lado e de empregadores tão facilmente quanto aceitam o trabalho. Mas o que permanece como grande enigma por boa parte do filme é porquê está sendo seguida, já que parece tão eficiente em seu trabalho. Difícil imaginar que ela tenha feito alguma coisa errada.
Entre empregadores e perseguidores, fica uma impressão que existe algo de estranho na escalação de Carano como protagonista. Não pelo seu físico, que é totalmente apropriado e muito bem usado no filme durante as cenas de ação, mas sim pela qualidade do elenco secundário que inclui Channing Tatum, Michael Fassbender, Ewan McGregor, Antonio Banderas e Michael Douglas. Minha melhor teoria é que Soderbergh é desses diretores que conseguem quem querem pro papel que querem.
Este é o primeiro filme de ação do diretor Soderbergh focado em cenas de artes marciais, e ele  provavelmente supôs (na minha opinião, acertadamente) que o público não estaria muito interessado em muitas cenas de diálogo. Como em um bom filme B de ação: chega rápido, forte e direto ao ponto. Não parece ter muitas cenas com efeitos especiais, mas com o avanço da tecnologia fica difícil dizer com certeza.
O que eu posso ter certeza, é que depois de ver Carano correndo, atirando, chutando e depois quicando na parede para chutar de novo, o filme não fica devendo em nada para outros similares com marmanjos nos papéis principais. Claro que também causa um estranhamento que alguém queria ficar nessa linha de trabalho considerando a taxa de mortalidade mostrada neste filme, mas o interessante mesmo é ver o tratamento dado por um diretor de primeira linha para um filme desse gênero. E ainda que não seja um filme que entrará para a história, é muito melhor do que a grande maioria das porcarias que são lançadas mensalmente.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A PELE QUE HABITO - LA PIEL QUE HABITO


NOTA: 8.
- As coisas que o amor de um louco pode realizar.

O que se pode esperar de um filme do diretor (e roteirista) espanhol Pedro Almodóvar? Perversão sexual, viradas no plot da história que mistura indas e vindas entre o passado e o presente. Tudo com uma fotografia linda que ressalta as cores brilhantes que o cineasta usa. Neste filme, todos os ingredientes estão no seu lugar, o que não chega a ser um desapontamento, mas também o filme não chega a empolgar muito.
Alguns filmes de terror antigos costumavam mostrar um cientista louco, pedaços de corpo, pessoas capturadas e uma vingança oculta. Acontece que, geralmente, esses filmes costumavam ter um pé fora da nossa realidade e um certo senso de humor. Quando vemos esses tipos de filmes, nunca consideramos que isso possa acontecer no "nosso mundo". Já Almodóvar faz o seu filme tão intenso que nos leva a crer que essa história bizarra deve ser levada a sério. 
O cientista louco nessa história, é Robert Ledgard, interpretado por Antonio Bandeiras em um momento de rara inspiração e intensidade. Uma tragédia aconteceu com ele, e sua loucura vem, na verdade, da sua dor. Seu coração está despedaçado, e ele acaba usando outras pessoas para reparar o mal que lhe aconteceu. É como se ele tivesse o direito de fazer isso. E como se as pessoas tivessem que se sacrificar para seu próprio bem.
Desde a abertura do filme, o vemos observando a bela Vera (Elena Anaya), que é uma prisioneira dentro da casa. Casa não, uma mansão em Toledo. De maneira geral, ela tem todos os luxos que uma pessoa pode ter, o que inclui livros, TV e sessões diárias de pilates (ou algo do gênero), com exceção da sua liberdade. Já que sequer ela possui os meios de se suicidar, é difícil pensar em muitas opções para sair desta situação.
Não falarei mais nada da história do filme, para não estragar surpresas que vão acontecer. Almodóvar usa as cores com tanta intensidade e de forma tão bela, que não chega a combinar muito com a história a ser contada no filme. Assim como o filme carece um pouco de química entre seus personagens. Sabemos que Vera quer seduzir Robert (talvez a única escapatória que ela consiga pensar), mas não sentimos que isso vai realmente acontecer.
A nota é mais pela habilidade de conduzir as cenas de maneira magistral como só o diretor é capaz de fazer do que pelo filme como um todo. Provavelmente, a história  expressa exatamente o que Almodóvar gostaria de ter contado, só me resta perguntar se os trailers me prepararam para decidir se queria ver ou não. E não acho que se tivesse tido a escolha, teria aceitado a assistir.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

GATO DE BOTAS - PUSS IN BOOTS


NOTA: 6.
- Tudo que eu preciso, são as botas.

Depois de servir de coadjuvante para Shrek em alguns filmes, agora que o ogro parece ter cansado as plateias chegou a hora do Gato alçar carreira solo. Muitos provavelmente irão dizer que já era hora, e para esses o filme vai ser uma boa surpresa que agrada tanto no visual quanto na parte da ação. E mesmo quando as cenas de ação não chamam tanta atenção, visualmente o filme nunca deixa de ser interessante e filme até mesmo supera os filmes do ogro.
Obviamente, temos a volta de Antonio Banderas dublando o gato mimado com delírios de grandeza, que seguindo o exemplo dos outros filmes que participou, se junta Humpty Dumpty (Zach Galifianakis), Jack (Billy Bob Thorton) e Jill (Amy Sedaris) e a mãe ganso dos ovos de ouro, sem contar a habilidosa ladra Kitty Pata Mansa (Salma Hayek) que perdeu suas garras mas desenvolveu uma incrível habilidade de roubar as pessoas sem que elas percebam. 
Apesar de o filme parecer mais bonito, a verdade é que o personagem do Gato de Botas não é tão memorável quanto Shrek. Ele tem seu charme, mas a verdade é que sequer consegue ser atraente como o Burro. Talvez por isso, a história pareça tão improvisada e não impressione muito. O personagem do Ovo Humpty Dumpty, que começa como amigo do Gato e depois se mostra inimigo, é de longe o personagem mais complexo, e também o mais interessante.
Os dois se conheceram no orfanato e se tornaram melhores amigos. O Ovo já tinha seus planos de conseguir os feijões mágicos que o levariam pra grandes riquezas quando crescessem e o levasse para roubar os ovos de ouro, mas uma traição acontece e eles somente se encontram anos depois para formarem novamente um time.
Diferente dos filmes de Shrek, o Gato de Botas não tem uma personalidade tão clara quanto nos filmes do ogro. Acaba se envolvendo em uma história de vingança e perdão que não ressoa como deveria. Ainda que agrade pelo apuro visual, o filme carece da malícia com que o roteiro de Shrek tinha. Gato de Botas é direcionado para um público mais jovem, com certeza, e isso não é desmérito algum. Só faltou um pouco para ser um melhor filme.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

SHREK PARA SEMPRE - SHREK FOREVER AFTER


NOTA: 5.
- Eu sempre achei que tinha te resgatado do dragão, e na verdade foi você que me resgatou.

Desde o primeiro filme, Shrek (Mike Meyers) vinha sendo "domesticado" pouco a pouco. Se distanciando cada vez mais daquele ogro que colocava medo nas pessoas que acabavam tentando caçá-lo com ancinhos e tochas. Neste quarto e (supostamente) último filme da franquia, ele já não assusta mais ninguém, o caminho da sua casa virou parte de uma rota turística e seus "fãs" pedem para que ele rugir (sua marca registrada). Além disso, ele está sempre ocupado por causa do casamento e dos filhos.
É já aí que o filme vai mostrando sua falta de originalidade. No velho estilo "você só dá valor ao que tem quando perde", Shrek faz um acordo para voltar a ser o ogro que era, como no início do primeiro filme. O acordo, feito com Rumpelstiltskin (Walt Dohrn), faz com que ele troque esse dia por um dia de sua infância. O dia escolhido é o do seu nascimento, e tal qual George Bailey (personagem do filme Felicidade não se compra), Shrek fica preso num mundo alternativo onde ele nunca nasceu.
Para sua sorte, Rumpelstiltskin não é tão inteligente quanto parece se proclamar e seu contrato tem uma cláusula que pode invalidar tudo: o beijo do amor verdadeiro (coisa já usada mais de uma vez só nessa franquia). Para isso, ele se junta ao Burro (Eddie Murphy) para encontrar Fiona (Cameron Diaz), que virou uma líder rebelde do ogros e tem um Gato de Botas (Antonio Banderas) domesticado que ficou obeso por causa da vida mansa. Como neste mundo Shrek nunca nasceu, nenhum deles se recorda de um dia tê-lo encontrado antes, o que dificulta o beijo romântico já que Fiona está ocupada demais para besteiras românticas.
Não apenas o filme repete piadas dos outros filmes da franquia, como repete as piadas dele mesmo. O garoto com voz esganiçada que pede insistentemente que ele "faça o rugido", repete o pedido pelo menos umas 5 vezes. Já a quantidade de vezes que Rumpelstiltskin troca de perucas eu perdi a conta. O próprio Shrek já não tem mais a mesma graça e parece mesmo ficar relegado a rugir para as pessoas. Como se isso fosse engraçado. O filme só ganha um pouco de graça com a entrada do Gato de Botas (que ganhará um filme próprio ainda esse ano), mas mesmo ele é mal aproveitado e seu olhar de pobre coitado já deu o que tinha que dar.
Eu entendo como Shrek pode ficar entediado com a sua vida. Entendo porque a vida dele neste quarto filme me entediou também. A animação é até bonita, mas não empolga. As cenas de ação não decolam e chegam a ser desnecessárias. Mesmo crianças pequenas verão esse filme com um gostinho de "já vi isso antes". E pior ainda, já vi melhor. Se este é realmente o último filme da franquia, não terminou com um final feliz.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

ENTREVISTA COM O VAMPIRO


NOTA: 9.
- Seu sangue amaldiçoou minhas veias mais doce que a própria vida. Foi então que as palavras de Lestat fizeram sentido para mim. Eu só conhecia a paz quando matava. 

Antes de vampiros virarem material de bobagens como Crepúsculo e Os diários do vampiro, eles eram usados como personagens de terror. Anne Rice, escreveu uma série de livros e escreveu o roteiro adaptando um deles para o cinema. O resultado se encontra aqui, em mais um belo filme de Neil Jordan (não creditado como roterista).
Acompanhamos Louis (Brad Pitt) contando sua longa vida de vampriro para um repórter (Christian Slater). Não toda sua vida, mas a partir do momento em que foi transformado. Começa em 1700, logo após a morte de sua mulher e filha (no livro ele nunca teve uma esposa). Louis se encontra em tamanho desespero que faz qualquer besteira que possa o levar à morte. Ao invés disso, ele encontra o vampiro Lestat (Tom Cruise).
Lestat lhe faz uma proposta simples: ou Louis aceita se transformar em um vampiro e lhe fazer companhia ou Lestat dará a morte que ele tanto deseja. Claro que Louis se transforma em um vampiro e os dois ficam passeando (e se alimentando) pelas principais cidades da época.
Há uma coisa aqui que o diferencia dos demais filmes. Não há uma "glamourização" no fato de ser vampiro. O personagem Louis é melancólico. Ele sempre se arrepende de ter se transformado no que se transformou. Duas pessoas no filme vão lhe pedir para virarem vampiros, e ele não tem a menor intenção de transformar nenhuma delas.
Ao mesmo tempo, o filme desmistifica muito coisa sobre os vampiros. Os vampiros aqui não morrem com estacas no coração, não temem símbolos religiosos ou coisa do gênero. Fica um ar de realidade no ar. Algo do tipo: "como seria se um vampiro realmente existisse". O que o torna muito interessante.
O filme não se aproxima muito do terror também. Cada mordida é feita com finesse. Há uma sedução no ar, mesmo quando Lestat vai morder Louis, há uma sedução. Não acho que chegue a ser homossexual, na verdade os vampiros não parecem ter apenas uma preferência sexual. Eles não estão apenas dizimando gado, eles estão realizando uma caça. Talvez o mais divertido seja a caça.
Inclusive, por isso acontece a parte mais assustadora do filme: eles transformam uma criança de 12 anos em uma vampira. Ela tem um rosto angelical e uma veia assassina que se transformam numa mistura impressionante. Vale ressaltar que ela não é uma má pessoa, ela na maioria das vezes sequer tem noção do que faz a princípio. É apenas uma criança que mata, e com passar dos anos sua aparência não muda. Nem nunca mudará.
Tom Cruise foi criticado pela sua escolha, mas está ótimo no papel. Há algo em sua maquiagem que tira a aura de astro misturado com uma atuação contida. O melhor do filme, sem dúvida.
A única coisa que me incomoda é que pouca coisa acontece no filme. É como uma vida normal de uma pessoa, só que bem mais longa. Sinto falta de alguma grande ação que levasse para o final, ao invés de ficar quase que numa enrolação. Não queria esperar tanto assim para o final do filme. Afinal,, não sou imortal como eles.

OBS: O papel do repórter deveria ser interpretado por River Phoenix (irmão de Joaquin Phoenix), mas ele morreu de overdose antes do início das filmagens. Por isso o filme é dedicado a ele.
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