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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

LINCOLN


NOTA: 10.
- Cada um de nós tornou possível que o outro fizesse coisas terríveis.

Estranho que os filmes  americanos, geralmente uma forma de arte bem democrática, não desenvolva melhor o seu próprio "histórico democrático". Normalmente, o que vemos são presidentes, que não existem,  transformados em verdadeiros heróis de ação, sábios impassivos ou até mesmo completos imbecis. Há ainda o caso do próprio Lincoln que anteriormente foi transformado em um caçador de vampiros capaz de usar um machado com extrema habilidade. Habilidade tamanha que poderia fazer diferença em batalha.
É assim e quase como uma regra, mas não podemos esquecer que toda regra tem suas exceções, e uma dessas exceções é este maravilhoso filme do diretor Steven Spielberg. O filme, a grosso modo, se trata do presidente tentando angariar a quantidade necessária de votos para aprovar a lei que aboliu a escravidão durante a Guerra de Secessão (também conhecida como Guerra Civil Americana). Claro que o filme aproveita esse episódio para descrever muito mais do que isso. O que o diretor faz, é mostrar a grandiosidade de um grande personagem e tudo que precisamos saber para entendê-lo (e quem sabe admirá-lo) sem precisar passar pela sua vida inteira. E como bônus, poucos filmes atentaram tanto para os detalhes que fazem parte da política.
Interpretado maravilhosamente por Daniel Day-Lewis, Lincoln é confiante, paciente e profundo conhecedor dos jogos políticos. Ele tem os pés no chão e faz o que acha necessário, desde que não manche sua ética, para atingir seus objetivos. Ele pode não apresentar grandes traquejos sociais, mas é muito inteligente, conhecedor da natureza humana e tem sempre uma história na ponta da língua que possa servir para convencer as pessoas de seu ponto de vista.
Aqui entra um dos trunfos do filme, que está ligado ao que eu disse sobre o filme se tratar sobre assuntos mais diversos do que aparenta. Lincoln considerava a escravidão um ato imoral contra um ser humano em uma época em que muitos sequer consideravam os escravos humanos, mas seu interesse ia além disso. Ele apressa a votação da 13ª Emenda (emenda que abolia a escravidão) porque sabia que se esperasse o final da guerra, ele não aprovaria depois; e também porque dessa forma ele iria reduzir a principal fonte de renda de seus inimigos. E dentro desse jogo político, entram os ótimos Tommy Lee Jones como o mais poderoso político abolicionista e David Strathairn como o secretário de estado.
Spielberg parece ter uma fixação pela guerra. Por isso que, mesmo que o filme tenha muitos campos de batalha sem mostrar batalha, ele não consegue evitar que o início do filme comece sangrento no meio de um lamaçal. Depois disso, o filme foca apenas na parte política de Washington, que é mostrada em cores com tons marrom na fotografia sempre sensacional de Janusz Kaminski, diretor de fotografia que há muitos anos faz parceria com o diretor.
Ao mesmo tempo, Day-Lewis parece ter uma fixação pelo Oscar. Seu Lincoln tem uma fala mansa que parece poder convencer qualquer pessoa. Sua expressão é cansada e envelhecida pelos anos de guerra que o consomem, e seu corpo curvado como se não tivesse mais condições de andar totalmente ereto. Ele não quer que ninguém mais morra nessa guerra. Ele sente pelas mortes e Day-Lewis encarna isso tudo perfeitamente e faz parecer fácil. E estamos falando do mesmo homem que já interpretou papéis díspares como o Açougueiro no filme de Scorcese e um "moicano". Talvez não haja nada que ele não possa fazer.
É uma aula de história, ainda que não pareça uma. Pelo menos nunca tive uma aula de história que tivesse me prendido tanto. Que tenha me deixado tão interessado. O filme termina tão logo o presidente é assassinado, mas nem acho que essa cena seja necessária. O filme poderia ter acabado com o fim da escravidão e da guerra, que é o verdadeiro legado de Lincoln. Talvez com a leitura em voz alta da Emenda (não ouso dizer que lê). Ele não entrou pra história porque foi assassinado, mas acho que se não houvesse essa cena grande parte da plateia poderia ficar decepcionada. De qualquer forma, é um filme para ser visto mesmo por quem não é fã de história. Para mim, é ainda mais gratificante assistir esse filme depois de ter assistido recentemente O nascimento de uma nação, pois assim posso desassociar a imagem do ex-presidente americano de um filme tão racista.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

AS AVENTURAS DE TINTIM - THE ADVENTURES OF TINTIN


NOTA: 9,5.
- Você acha que é coincidência? Nada do que eu faço é um acidente.

Fazer um filme como esse não é uma novidade para o diretor Steven Spielberg. Temos um intrépido herói que se envolve em uma história emocionante, enfrenta diversos perigos em diversas e exóticas locações, grandes vilões com planos mirabolantes, aviões, trens, barcos e a busca por um tesouro. Troque Tintim por Indiana Jones e verá que o diretor está em casa. Na verdade, ficou uma vontade que o último filme do arqueólogo fosse mais parecido com esse. Teria sido bem mais divertido.
E pela segunda vez (ou pelo menos esse é o número que me recordo) eu vou fazer um elogio ao uso do 3D aqui no blog. A exemplo do que James Cameron fez em Avatar, Spielberg usa a ferramenta com maestria para dar novas dimensões às filmagens convencionais, e não apenas para justificar um ingresso mais caro nos cinemas. E com isso, ele ainda consegue fazer com que este seja o primeiro desenho animado em 3D que realmente valha a pena ser assistido nesse formato.
Não sei porque os franceses não pensaram em fazer uma versão moderna do personagem que eles tanto amam. Afinal, muitas pessoas no Brasil (assim como nos EUA onde foi feito) sequer conhecem o personagem, mas com certeza menos ainda conhecem Adèle Blanc-Sec e ela ganhou sua versão nos cinemas franceses ano passado (a personagem também vem dos quadrinhos). De qualquer forma coube a Hollywood na figura de seus produtores Peter Jackson (De O senhor dos anéis) e Spielberg a colocarem o personagem novamente nas telas.
Esse Tintim (Jamie Bell) é um personagem bem interessante. Mesmo que Indiana Jones passasse a maior parte dos filmes correndo atrás de tesouros arqueológicos por todo mundo, nós o vemos dando suas aulas na universidade. Quer dizer, ele busca aventuras mas tem seu trabalho. Tintim é um repórter, mas só sabemos disso porque alguém fala, já que não pisa no jornal em momento algum. Fora que ele certamente parece com um adolescente, mas todos o tratam como se fosse um adulto.
Ele está sempre acompanhado por seu fiel cachorro Milu, que é mais inteligente que a maior parte dos outros personagens do filme. Além disso, ele se junta ao Capitão Haddock (Andy Serkis), e uma dupla de policiais atrapalhados que acabam sempre investigando os mesmos casos que Tintim, Dupond e Dupont (interpretados por Nick Frost e Simon Pegg). Todos para tentar impedir os planos do maquiavélico Rackam (Daniel Craig).
O filme foi rodado com a captura de performance, que está crescendo cada vez mais em Hollywood. Confesso que ão sou muito fã dessa tecnologia em desenhos animados, pois tem uma função de deixar um desenho tão real como se fosse um filme, mas qual o propósito de se fazer isso ao invés de se fazer um filme? Mas aqui, o efeito fica bem interessante. Tintim parece humano como um filme deve ser, mas ao mesmo tempo ele também parece com o personagem desenhado em suas histórias. O mais importante é que Tintim funciona nas telas.
E isso tudo faz de Tintim um dos filmes mais divertidos de 2011. Tenho certeza que pode agradar aos fãs do herói ao mesmo tempo que pode conquistar novas plateias, especialmente as mais novas que sequer o conhecem. Só não levou nota máxima, porque quando a ação começa não pára mais. Tivesse me dado um tempo para respirar um pouco, eu teria gostado ainda mais.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

CAVALO DE GUERRA - WAR HORSE


NOTA: 9.
- Você não pode fazer isso. Ele é meu cavalo.

Existe algo além da história que está sendo contada nas telas. Baseado tanto em um livro infantil quanto em uma peça de teatro, o filme faz mais que contar a história do cavalo. É uma obra com imagens tão carregadas de beleza e textura que não se pode explicar em palavras, é preciso ver para saber do que estou falando. Tudo é tão bonito e tão impressionante, que Spielberg quase nos faz esquecer que o filme se passa durante uma guerra onde milhões de pessoas estão morrendo.
A história começa com uma pequena família que vive numa pequena vila inglesa. São apenas pai, mãe e filho que cultivam numa fazenda que alugam de Lyons (Davids Thewlis), que está sempre os cobrando pelos atrasos no aluguel. O filho, Albert (Jeremy Irvine) ajuda como pode o pai que está quase sempre bêbado e sua mãe que é muito trabalhadora.
Até que acontece um leilão na vila, e o pai bate os olhos num cavalo que parece ser especial. Ele disputa com Lyons pelo cavalo até sair vencedor, mesmo que tenha pago muito mais do que deveria pelo animal. Especialmente se isso significa que ele gastou o dinheiro do aluguel para isso. Quando volta para casa, a mãe fica aterrorizada pelo preço pago no animal, afinal, ela apenas queria um robusto cavalo para arar o campo. Mas Albert cria uma forte conexão com o animal e consegue com que ele realize tudo que precisam. Infelizmente, seu pai acaba tendo que vender o cavalo para um militar quando estoura a primeira guerra mundial. Albert promete que eles vão se encontrar de novo.
O cavalo, Joey (que segundo li, também personificou Seabiscuit) passa por uma série problemas. Do oficial inglês ele vai parar nas mãos de alemães. Dos alemães ele vai ser cuidado por uma menina em um moinho na França. Da França ele vai acabar parando no meio da guerra numa batalha com muito arame farpado, lama e corpos espalhados.
Joey, porém, realmente parece ser um cavalo especial. Tão especial que passa por vários donos e todos o tratam com muito cuidado. Com carinho. Mesmo um oficial que diz que os cavalos são armas de guerra e que devem ser usados até que morram, contrasta com o subalterno que apesar de obedecer as ordens tenta fazer o que pode pelo animal. Joey passa pelos dois lados da guerra, mas é sempre admirado e bem cuidado por todas as pessoas.
Tudo isso é filmado com muita beleza, mas não dá uma coesão perfeita ao filme. O protagonista é um mero espectador das coisas que acontecem ao seu redor, e cada parte do filme parece ser um pouco desconectada das demais.
Spielberg, consegue passar uma nobreza ao animal e o dá um final feliz. Alguns podem reclamar da pieguice, mas depois de passar por tanta coisa e depois de muita gente morrer, o final feliz é apenas um alívio para a plateia. Seria muito triste se terminasse de outra maneira. E ao final do filme, o cavalo correndo pelo pôr-do-sol dá uma bela visão que só um mestre como o diretor sabe fazer. Quase como se fosse uma homenagem à John Ford que tanto fazia cenas assim em seus faroestes. Assim como o final que nos inspira, como a Hollywood fazia naquela época. Spielberg nos lembra que cinema é também espetáculo, e nessa matéria ele é mestre.

domingo, 14 de agosto de 2011

SUPER 8


NOTA: 9.
- Se vocês falarem alguma coisa sobre isso, você e seus pais vão morrer.

Tive uma sensação estranha no cinema, e não era só pelo fato de estar assistindo um filme cujo nome é inspirado num tipo de filmagem obsoleta em uma moderníssima sala IMAX com qualidade de som e imagem acima da média. Foi uma sensação de familiaridade com o material, em especial de Steven Spielberg (que não por acaso é produtor deste filme). Claro que muitos vão citar Os Goonies, também produzido por ele, e Contatos imediatos de terceiro grau, mas para mim não resta dúvida que a principal influência foi E. T., o extraterrestre, e as notas finais da trilha deste filme, claramente inspirada na trilha do pequeno alienígena, só confirma tudo.
O principal que o diretor J. J. Abrahams (Star Trek) faz, é muito mais do que passar o filme nos anos 1970, é passar o estilo do filme como se ele tivesse sido realmente feito naquela época. Não é apenas adotar uma estética em relação à fotografia, é nos fazer lembrar uma época em que os chamados blockbusters não eram sinônimos de filmes com efeitos especiais usados com futilidade, roteiros sem história ou personagens interessantes e que não quisessem apenas se transformar em uma franquia. Lembra dos "bons e velhos tempos"? Abrahams lembra e faz uma ode à ele.
Saem os adolescente estúpidos que populam em número cada vez maior as películas e voltam as corajosas e espertas crianças que tentam resolver seus problemas sem a ajuda dos adultos, ainda que não saibam exatamente como fazer isso. Joe Lamb (Joel Courtney) e seus amigos estão fazendo um filme filmando em câmeras super 8. Num dia das filmagens, Joe vê uma caminhonete entrar nos trilhos e rumar em direção ao trem, o que causa um terrível acidente (maravilhosamente filmado). Após o acidente, estranhos eventos começam a acontecer na cidade, e cabe ao pequeno grupo descobrir o que é.
Geralmente nesses filmes, os adultos parecem ser mais distantes do que o normal. Acontecem todo o tipo de confusões com as crianças que eles parecem não tomar conhecimento até que seja tarde demais. Ainda assim eles tem importante papel no filme, seja na parte militar escondendo alguma coisa ou seja com o pai de Joe, um policial, tentando descobrir os acontecimentos anormais de sua cidade. Eles são os obstáculos que as crianças devem superar. Não direi mais nada sobre a história, já que a maior diversão está em descobrir os acontecimentos e as surpresas que ele guarda para nós.
Não é um filme tão bom quanto E. T., e não sei se tem as qualidades para virar um clássico como o outro se tornou. Ao contrário do curta apresentado dentro do filme, o filme é certinho demais e não deixa espaço para  improvisações. Fora isso, só é uma pena que o desfecho do filme não seja tão emocionante quanto todo resto do seu desenvolvimento. Não é perfeito mas é o melhor filme de férias deste ano (e de muitos outros anos) até agora, muito melhor que os filmes da Marvel (Thor e Capitão América) entre outros, e duvido que será superado esse ano. A dupla sabe que não importa que os efeitos especiais sejam os mais impressionantes, o filme não funcionará se não nos importarmos com os personagens. E nós nos importamos com eles, e muito. Por isso é tão acompanhá-los.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

POLTERGEIST - O FENÔMENO


NOTA: 7.
- Ele mente para ela. Diz coisas que somente uma criança pode entender. Para ela é apenas outra criança. Para nós é a Besta.

Lançado em 1982, este filme é uma produção (e história) de Steven Spielberg, que no mesmo ano dirigiu o maravilhoso E.T. - O extraterrestre. Dizem que na verdade ele dirigiu esses dois filmes, mas como estava preso por contrato com o filme do alienígena, não poderia ter seu nome atrelado à direção de outro filme e por isso teria usado o nome de Tobe Hooper (Massacre da serra elétrica). A verdade é que para mim, o filme parece um misto dos dois, nem tão fantasioso nem tão violento. Um meio termo bem agradável
Acompanhamos por um tempo uma típica família feliz do subúrbio, coisa que Spielberg sabe trabalhar bem nos seus filmes. São os Freeling, casal com três filhos. Depois de um tempo, algumas coisas estranhas começam a acontecer, objetos que se movem, cadeiras que vão de um ponto a outro da casa e por aí vai, assim como a menina mais nova que começa a se comunicar com as pessoas da TV. A mãe, que passa mais tempo em casa, acha que ela está falando dos programas e seriados que passam e até fica excitada pelo fato de coisas sobrenaturais acontecerem em sua casa. Por um tempo.
O problema é que não fica somente nisso. As manifestações começam a ficar mais violentas, a piscina toma vida própria, a árvore tenta engolir pessoas e a menina acaba se juntando às pessoas da TV em algum outro plano de existência. Tudo pode parecer meio ridículo falando, mas passamos mais de uma hora acompanhando essa família até que essa loucura toda comece a realmente acontecer e acabamos nos importando com eles, não importa quão ridícula as situações pareçam. Agora, eles terão que contar com a ajuda de peritos no sobrenatural para terem a filha de volta.
Na época de seu lançamento, o filme contava com o que havia de melhor em efeitos especiais que impressionavam muito a platéia. Hoje, os efeitos estão bem datados e não impressionam mais ninguém, mas o filme não é feito apenas disso. É também um suspense que prende a atenção. Assim como os efeitos de Os caçadores da arca perdida também estão datados e o filme continua sendo uma pérola. É uma habilidade que Spielberg tem usar efeitos de ponta e ainda assim concentrar o filme em uma história que seja interessante.
Engraçado é que este filme perdeu o Oscar de efeitos para o próprio Spielberg e a saga do alienígena que fica perdido na terra. Hoje, alguns filmes lidaram com o sobrenatural e os mortos com mais eficiência, como os bons Os outros e O orfanato por exemplo, mas não apaga o fato desse ainda ser um filme interessante mesmo com o passar do tempo. Talvez seja nostalgia de quem morreu de medo desse filme nos 1980 e que as platéias mais novas vão achar ruim. Quem irá dizer ao certo?

OBS: Tragédias acompanharam a história desse filme. A atriz que interpreta a filha mais velha, Dominique Dunne, foi estrangulada pelo namorado e teve morte cerebral no mesmo ano do lançamento do filme. Já Heather O'Rourke, que interpreta a mais nova, morreu de parada cardíaca com apenas 12 anos no mesmo ano em que seria lançada a segunda continuação deste filme. Dizem que ela estava doente durante toda a produção no ano anterior mas nunca reclamou. RIP.
OBS2: A fala do filme, "They're here!" foi eleita como a #69 de uma lista de 100 das melhores falas da história do cinema.

terça-feira, 24 de maio de 2011

TUBARÃO


NOTA: 10.
- Eu não vou ficar perdendo meu tempo com um homem que está entrando na fila para ser o próximo almoço.

Este é filme que começou a mudar o cinema americano. Algumas pessoas até mesmo clamam que é o início da infantilização do cinema que começou com Spielberg aqui e logo depois com o lançamento de Star wars de George Lucas (os dois também logo se juntariam para fazer a série Indiana Jones). Se os dois são culpados, isso é outra história, mas é fato que os cinemas hoje ficam cheios de lançamentos de blockbusters e foram os dois que começaram a moda. 
O que devemos começar a analisar, pra começar, é que uma moda não começa a partir de uma coisa ruim ou de um fracasso. Os dois filmes se tornaram fenômenos porque são filmes muito bons, se fossem ruins a onda de filmes de grande orçamento não teria acontecido. Foi em algum lugar no meio do caminho que a coisa se distorceu e blockbusters viraram sinônimos de filmes ruins com grande orçamento (com exceções, claro).
Tubarão fez tanto sucesso em seu lançamento porque é uma ótima mistura de filmes de ação com suspense de dar medo. Não aquele medo apavorante como o de O exorcista, mas um medo mais palpável, de alguma coisa que não vem de outro mundo (seja lá de cima ou lá de baixo). Com um orçamento estimado de U$ 8 milhões, o filme fez uma bilheteria de mais de 400 em todo o mundo. Nunca um filme tinha mostrado que cinema poderia ser tão rentável antes.
O filme, porém, vai além disso. É um filme que não foca somente em efeitos especiais, ação ou suspense, foca em seus personagens. Apesar de mostrar um ataque logo na primeira cena, o tubarão só vai aparecer depois de mais de uma hora de filme. Até então, estamos totalmente imersos naquela pequena ilha e com seus personagens, principalmente na disputa entre o xerife Brody (Roy Scheider) que quer fechar a praia para evitar novas mortes e o prefeito que quer a praia aberta para manter a saúde financeira da cidade.
É preciso outras mortes para que o prefeito concorde em pagar para o caçador de tubarões Quint (Robert Shaw) eliminar definitivamente a fera que está aterrorizando a pequena ilha. E é com mais da metade do filme que Quint, Brody e o especialista em animais marinhos Hooper (Richard Dreyfuss) partem para a caçada em alto mar tal qual Ahab caçando a baleia. Spielberg diz abertamente que o tubarão só aparece depois de tanto tempo porque parecia falso. Que sorte a dele, já que a demora em mostrar o tubarão só aumenta o suspense do filme. Menos é mais aqui. Quando o tubarão realmente aparece ele realmente parece falso, mas já estamos tão imersos no filme que não faz diferença nenhuma.
O que importa é que o filme funciona perfeitamente apesar de qualquer limitação. O close do tubarão pode parecer falso, mas o conjunto das sombras dele na água, junto com as filmagens de um tubarão verdadeiro misturados com o tubarão mecânico funcionam muito bem, e o que importa é o conjunto, certo? É um filme como é cada vez mais raro de encontrar, não é muito violento, não tem cenas de ação demais e por aí vai. Nem nada demais nem nada de menos. Na medida certa para apenas curtirmos um bom filme.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

MINORITY REPORT


NOTA: 10.
-Sinto muito, John, mas você vai ter que correr de novo.

Este filme é uma bela surpresa. Pense bem, o diretor mais rentável de todos os tempos se juntando com um dos maiores, e também um dos mais rentáveis, astros da atualidade. O que se esperar? Um filme que procure apenas uma diversão rápida e rasteira, não? Bem, felizmente não é isso que fizeram os dois quem são, e eles continuam escolhendo muito bem seus projetos.
Cruise interpreta John Anderton, chefe de uma divisão da polícia conhecida como Pre-Crime, que prende criminosos antes que eles cometam os crimes. Como eles podem ser condenados de algo que não fizeram? O sistema se baseia nas previsões de três cognitivos cujos nomes são baseados em escritores policiais: Dashiell (Hammet), Arthur (Conan Doyle) e Agatha (Christie). Eles captam as intenções dos futuros criminosos e enviam as informações para que Anderton possa evitar o crime. Em seis anos, não houve um único assassinato. O sistema é perfeito. Ou assim eles dizem.
O problema começa com a chegada de Danny Witwer (Colin Farrell), que procura falhas nesse sistema. "Se há uma falha, é humana", ele diz. Ninguém vê os cognitivos como humanos. Na melhor das hipóteses, eles seriam como o mais perto de Deuses, chegando a serem reverenciados. Aliado a isso, Anderton recebe um chamado de um crime, que ele mesmo deve cometer, contra alguém que não conhece. Enquanto filmes fazem com que o culpado procure a inocência por um crime já ocorrido, aqui Anderton deve tentar se inocentar de um crime que ele deve supostamente ainda cometer. Como se faz isso?
Muitos filmes se baseiam em efeitos especiais para ter uma história de um filme. O resultado nem sempre é animador. Spielberg faz o contrário, o que interessa aqui é a história. Claro que ele usa efeitos especiais de última geração, que impressionam mesmo com os avanços que vieram depois. Mas ainda assim, nenhum efeito especial se sobrepõe à história em momento algum. Tudo é para ajudar a contar a história. Alguns se baseiam na ação, outros nos efeitos, Spielberg se baseia na história. Por isso se destaca de todo o resto. Por isso é maravilhoso na maioria das vezes.
É o diretor mais famoso em sua melhor forma aliado a um astro que melhora cada vez mais com o passar do tempo. No mínimo merece uma olhada.

OBS: A história se baseia num conto curto de Philip K. Dick, o mesmo que escreveu um conto que deu origem a Blade Runner. Não li nenhum dos dois contos, mas o futuro aqui é bem mais animador que no caçador de andróides.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

INDIANA JONES E O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL


NOTA: 6.
- Para um velho, até que você não luta mal. Tem tipo o quê? 80?” 

Há um hiato de quase 19 anos entre este filme e o anterior da série. E infelizmente esse hiato é percebido na tela. Chego a dizer que o problema começa logo no título. Este novo parece um título de episódio de He-man.
Outro fato que se nota de cara é o envelhecimento do ator. Me lembra muito Sean Connery em A Liga Extraordinária, quando se vê claramente que o ator interpreta um personagem que não condiz com sua idade. Indiana Jones é capaz de proezas ainda mais inacreditáveis do que realizou nos longas anteriores. Podiam ter brincado um pouco mais com isso no filme.
Aqui, Indiana é capturado por Russos (pensei que iam ser deixados em paz com o fim da Guerra Fria) para recuperar um objeto no mesmo galpão superguardado onde foi deixada a Arca da Aliança no primeiro filme. O objeto em questão é a Caveira de Cristal do título.
Mas por que essa caveira é tão importante? Para descobrir Indiana passa pelos mesmos problemas de sempre: é capturado, escapa, é capturado de novo, escapa de novo, e por aí vai.
Dessa vez ele conta com a companhia de Mutt Williams, interpretado por Shia LaBeouf que não convence de forma nenhuma como herói de ação apesar de Spielberg querer empurrá-lo dessa forma. Um garoto irritante e nervoso que não faz que seja surpresa nenhuma ele ser filho do herói (com a personagem Marion, também do primeiro filme).
O que fez com que a série tivesse grande sucesso, era ver Indiana correndo atrás para desvendar grandes segredos da humanidade, aqui é só enfadonho o vir perseguir uma lenda obscura que, para fazer com que tenha um significado maior do que realmente merece, recebe uma explicação pra lá de estapafúrdia.
O filme até segue tentando recuperar a magia dos anteriores, com boas perseguições e cenas de ação, apesar de uma cena ridícula envolvendo formigas gigantes que comem pessoas. Mas não é de se espantar que o final do filme seja um festival efeitos especiais. Spielberg sempre se mostrou um devoto a elas: quase estragou o relançamento de E.T. substituindo o boneco do original por um ser digital; e não só isso, nos próprios Indianas anteriores ele usava em menor escala (hoje, acho que mais por necessidade que por escolha). Aqui ele erra de vez a mão.
Difícil acreditar que toda essa espera para fazer a continuação por não encontrar a “história certa” tenha acabado com o roteiro desse filme. Indiana tenta fazer jus a sua reputação, só podia ter esperado por uma história boa o suficiente para isso. Ás vezes, só carisma não basta.
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