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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O SÉTIMO SELO - DET SJUNDE INSEGLET


NOTA: 100.
- Eu devo lembrar desse momento.

Ingmar Bergman é um desses diretores que coleciona obras primas, e esta pode ser a maior delas. Ou pelo menos é uma das mais conhecidas. A história chegou a ser parodiada e é muito reverenciada. Com todos os motivos para isso, claro. É a história de um cavaleiro retornando das cruzadas em um barco onde quase todos morreram pela praga. A Morte vem ao seu encontro para buscá-lo, mas ele a convence a jogar xadrez. Se ele vencer, não morrerá, se perder, pelo menos permanecerá enquanto o jogo ainda estiver acontecendo.
Em uma cena, o cavaleiro chega a uma igreja e vai se confessar. Ele faz sua confissão abrindo sua alma. De certa forma, ele parece querer entender porque certas coisas acontecem. Ele queria poder falar com Deus, ou pelo menos gostaria de entender porque as coisas estão tomando um caminho tão sombrio. De repente, a figura para quem está se confessando se vira e revela ser a Morte, ouvindo a tudo, inclusive as estratégias do jogo de xadrez que estão jogando. Infelizmente, imagens como essa não tem mais lugar no cinema moderno. Como ele sabe que a Morte gosta de xadrez? Ele faz parecer como se isso fosse de conhecimento geral, e em nenhum momento chegamos até a estranhar.
Não. O cinema de hoje em dia tem grande comprometimento com o "real". O filme de Bergman tem muito mais a ver com os filmes mudos do que com os outros filmes de sua época, e menos ainda com os filmes que vieram depois. E eu incluo os filmes do próprio diretor a essa lista. Um filme que "fala" do silêncio e da ausência de Deus.
Muitos filmes falaram sobre Deus, mas poucos tiveram a coragem de falar de maneira tão direta sobre o assunto. Em quantos filmes vemos um homem jogando xadrez contra a própria morte? A imagem é tão perfeita, tão emblemática, que consegue sobreviver a inúmeras paródias. A coragem do diretor vai além quando ele não termina o filme com um clímax, como é de se esperar. Ao invés disso, somos agraciados com uma imagem tão ou mais poderoso que o jogo de xadrez, e que provavelmente vai ficar na mente de qualquer pessoa que assistir.
O filme ainda usa a praga como forma de mostrar comportamentos extremos. Ninguém age de maneira comum. As pessoas são más com quem podem ser. O cavaleiro passa por uma mulher que está acorrentada esperando para morrer queimada na fogueira, Aparentemente, ela teria dormido com o demônio, o que teria atraído a peste para o mundo. O cavaleiro aproveita para conversar com ela, afinal se ela teve contato com o diabo, isso pode significar que ela tenha conhecimento de Deus. Mas ele não consegue ver nada além do vazio dos olhos da mulher. Não há resposta para esse homem.
A praga parece representar todos os medos dos homens, talvez por isso acabe fazendo surgir o que de pior há na humanidade. Os únicos que demonstram amor é o casal de atores e seu filho ainda pequeno. Todos interpretados com uma maestria impressionante, liderados pelo não menos brilhante Max Von Sydow. O elenco forte só serve para engradecer ainda mais este filme maravilhoso e fascinante.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

TÃO FORTE E TÃO PERTO - EXTREMELY LOUD & INCREDIBLY CLOSE



NOTA: 6.
- Eu não sabia o que estava esperando por mim. Embora meu estômago estivesse revirando e meus olhos lacrimejando, eu pus na minha cabeça que nada ia me deter. Nem mesmo eu.

Há algum tempo, Hollywood vem revisitando a tragédia de 11 de setembro. Seja através de referências um pouco tímidas com medo de ofender os espectadores, seja de forma escancarada e disfarçada de documentário como Fahrenheit 9/11. Talvez o motivo seja porque não importa o quanto se tente, nenhum filme vai conseguir um momento catártico falando de uma tragédia como essa. Aqui a tragédia não mostra sacrifício, reflexão ou pesar, reflete apenas um mal gosto ao se referir ao tema.
É a história de um menino de 11 anos de idade chamado Oskar Schell (Thomas Horn), cujo pai Thomas Schell (Tom Hanks) morreu em uma das torres gêmeas atingidas pelos aviões. Sua mãe (Sandra Bullock)  chora pelo marido, já Oskar lamenta a morte de seu pai procurando vídeos na internet de pessoas que se jogaram do prédio e imaginando se é seu pai, mantendo um santuário secreto em sua homenagem ou relembrando dele em flashbacks.
Até que um dia ele encontra uma chave escondida em um envelope com o nome Black escrito. Acostumado com jogos que seu pai sempre o preparou para desvendar, Oskar acredita que seja uma pista que deve seguir para descobrir algo que seu pai lhe deixou. Cheio de manias, ele se arma de máscara de gás, alguns outros objetos e um pandeiro que toca para não ter um ataque de ansiedade. Talvez o menino sofra de síndrome de Asperger, o que o faz ser um gênio mas sem traquejos sociais. Talvez esses jogos fossem uma maneira de seu pai fazer com que ele saísse de casa e se relacionasse com pessoas. Ou talvez seja simplesmente que não haja jogo nenhum.
Sem se importar com o que seja, Oskar não se detém de jeito nenhum em sua busca. Seja correndo de um lado para o outro (ele não usa transporte público) ou enfrentando seus medos da forma que pode. Ele ressente de sua mãe por ter sobrevivido e não seu pai. Ele não faz ideia do quanto machuca sua mãe com isso, mas só parece se importar em seguir de forma que seu pai ainda possa ter lhe deixado algo.
Não acompanhamos todas as visitas que Oskar faz a todos os Blacks (são 472) que encontra na lista telefônica, mas alguns encontros interessantes. Logo na sua primeira visita, ele bate na porta de Abby Black (Viola Davis), que é gentil o suficiente para deixar que o garoto entre em sua casa e ouvir a história dele, mas o menino não consegue compreender que ela está passando por um crise em seu casamento naquele momento. É uma cena tocante em especial pela atuação de Davis, e é uma pena que o filme não tenha outras cenas poderosas como essa.
O fato de o menino seguir sozinho pela cidade é um tanto quanto surreal. No prédio ele é superficialmente vigiado por um porteiro (John Goodman) e faz um amigo. Um velho senhor que se mudou para o apartamento de sua avó e que se diz ser o locatário. Ele não pode falar, ou simplesmente não irá dizer nada. Ele segue ajudando o menino em sua busca pelo Black correto ou o lugar que sua chave possa abrir se comunicando apenas através de palavras escritas em um bloco.
A verdade é que esse filme não é sobre o atentado. É apenas uma desculpa para tentar levar as platéias para emoções genéricas como solidão, tristeza ou mesmo felicidade. Você vai descobrir sobre a chave ou mesmo sobre a pessoa procurada, e eu descobri que falta uma história sobre um menino que perdeu seu pai no atentado que realmente mereça ser contada. Mesmo para mim, brasileiro, o filme sobre uma tragédia como essa parece sem sentido, e como disse: de mal gosto.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

TRÊS DIAS DO CONDOR - THREE DAYS OF THE CONDOR


NOTA: 9.
- Condor é um amador. Ele está perdido, é imprevisível e talvez esteja até sentimental. Ele poderia enganar um profissional. Não deliberadamente, mas porque ele está perdido e não sabe o que fazer. 

Alguns podem dizer que este filme está ultrapassado. Ele dirão isso por conta dos computadores antigos (daqueles de tela preta e letras verdes apenas, sem imagem alguma) e as técnicas de espionagem que estão décadas atrasada. Quando eu vejo o filme, porém, não vejo os aparatos tecnológicos, eu vejo a história. E esse filme tem uma grande história para contar. Coisa que muitos genéricos do gênero tentam e quase nenhum consegue.
Turner (Robert Redford) trabalha para a CIA, mas não se trata de um espião. Secretamente, sua função é ler qualquer coisa publicada em busca de códigos ou algo do gênero. Ele acha que encontrou algo em um livro que estava trabalhando. Algo que pode ser grande. Esse perfil que ele tem, dá características interessantes ao seu personagem. Ele tem cabelos longos, calça jeans e camisas sem gravata e vai para o trabalho numa pequena moto.
Ele sai para almoçar e quando volta todas as pessoas do seu escritório estão mortas. Assassinadas a tiros. Como eu disse, ele não é um agente "de verdade". Não sabe como deve agir exatamente com a situação que se encontra. O máximo que consegue pensar, é ligar para a agência e pedir para que o busquem. Ele quer apenas estar seguro, mas no encontro com o agente, ele acaba quase sendo assassinado também. Sua única alternativa é deixar a paranoia tomar conta dele e duvidar de tudo e de todos.
A única pessoa que acaba confiando, é Hale (Faye Dunaway), uma fotógrafa raptada por ele mas que depois acaba simpatizando pela sua causa. De resto, ele não sabe mais o que esperar. "Por que eu devo me identificar a você e você não tem que se identificar pra mim?", ele pergunta para um agente. No mundo da espionagem, parece ser comum você somente acreditar em alguém que não trabalha nessa área. Redford traz uma seriedade muito interessante ao papel principal, e faz um par muito interessante ao lado de Dunaway. O elenco conta ainda com a presença de Max Von Sydow como um assassino.
O interessante é que o filme foi lançado um pouco depois do escândalo de Watergate, que terminou com o fim da presidência de Nixon, que renunciou. Esse clima contagiou a película em frente a um público que acreditava que qualquer coisa do filme pudesse ser verdade por conta dos escândalos que surgiam a todo momento. Em época de Guerra Fria, era muito possível que qualquer coisa fosse considerada verdade em termos de política. Talvez esse seja um dos motivos que fizeram o filme ter sucesso naquela época. Mas é o talento que faz com que ele ainda continue sendo muito bom ainda hoje.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O EXORCISTA - THE EXORCIST


NOTA: 9.
- Me mostre uma sósia de Regan, mesma voz, tudo. Eu vou saber que não é ela. E eu estou dizendo que aquela lá não é ela. Agora eu quero que você diga que sabe que não há nada errado com ela a não ser sua mente. Me diga de fato que um exorcismo não fará bem a ela.

Há os que o considerem um clássico ou os que não considerem, depende de cada um. O fato é que a história da menina possuída por um demônio e que precisa ser exorcizada envelheceu muito pouco de 1973 para cá. Continua sendo um filme de terror enervante (de roer as unhas mesmo) e também um dos maiores exemplares do gênero. Não é à toa que foi indicado a diversos prêmios da academia (primeiro filme de terror a ser indicado para a categoria principal).
Existe alguma coisa de errado com a menina Regan (Linda Blair, que ficou sempre marcada por este papel). Ou há um problema realmente grave com a cabeça da pobre garota, ou um demônio está realmente habitando seu corpo. Devido os tratamentos e exames que realiza, não sei dizer ao certo qual é a pior alternativa para ela. Mas mais importante, é que não importa o que realmente seja, mas que seja lá o que for aquilo, deve deixar de atormentá-la.
Se a função do cinema é fazer a platéia vivenciar experiências pelas quais nunca passaríamos, pelo menos não em situações normais, este filme excede qualquer expectativa e ainda o deixa imbatível em relação a todos os genéricos que tenham "exorcistas" no nome. Medo, esperança, horror, alívio, passamos por todo um carrossel de emoções durante a exibição, que esqueço de pensar um determinadas lógicas naturais e apenas vou sendo levado pelas experiências.
A história é bem conhecida entre os que viram o filme ou não, e foi adaptada do livro para as telas pelo próprio autor, William Peter Blatty (que levou um oscar). Diz-se que todos os detalhes, especialmente em relação aos ritos, são acurados, mas mesmo que não fossem, não fariam grande diferença pois me fisgou de qualquer maneira. Me interessa mais o padre com crise de fé que deve expulsar o diabo dela do que como ele vai fazer isso. Ele mesmo é relutante como a maior parte da platéia, o que ajuda a aumentar a experiência.
Talvez se tivesse optado por mostrar espíritos voando pelo quarto ou coisa do gênero, o filme poderia estar hoje ultrapassado. Felizmente, poucas vezes antes os efeitos especiais foram usados com tanta sobriedade quanto aqui. O quarto parece frio porque está realmente frio. A cama não dá impressão de mexer, ela realmente sai do lugar. Vemos o que realmente acontece, o que somente aumenta o efeito do filme. Se tudo que vemos é real, então talvez o que aconteça também seja. Nada de efeitos ou emoções baratas aqui.
Para completar, o elenco do filme é afiadíssimo. Blair faz a garota tão demoníaca que haviam os que dissessem que ela estava realmente possuída. Ellen Burstyn como a mãe atormentada pelo estado da filha está ótima. Jason Miller como o padre em crise está ótimo, complementado por Max von Sydow (estranhamente o único não indicado) como o padre veterano. 
É tudo isso que transforma o filme em uma experiência. E uma grande experiência.

terça-feira, 1 de junho de 2010

ILHA DO MEDO


NOTA: 6.
"Eu fico perguntando que é pior: viver como um monstro ou morrer como um homem bom?" Teddy Daniels

Sempre que um novo filme de Scorcese está para ser lançado, uma grande expectativa se lança em cima do projeto. Certamente ele é uma lenda do cinema e um dos poucos profissionais da sua época que continuam filmando com qualidade. A única outra exceção que me vem à cabeça é Eastwood, mas esse na verdade hoje filma com qualidade superior. Infelizmente, mesmo os grandes cineastas não estão livres de decepcionar a platéia. E foi assim que me senti ao final de Shutter island, sua quarta parceria com DiCaprio. Não que o filme seja ruim, é só que seu nome gera as tais expectativas de tinha falado antes.
A ilha do título, é uma espécie de Alcatraz da psiquiatria. Os criminosos considerados insanos vão para lá, de onde parece ser impossível fugir. É lá que chegam Teddy Daniels (DiCaprio) e Chuck Aule (Mark Ruffalo), dois agentes federais para investigar a fuga de uma paciente. A chegada na ilha chega a ser sinistra, como a equipe de filmagem que chega na ilha de King Kong. Antes que esqueça, vale ressaltar que a época é logo após a segunda guerra mundial e plena época da guerra fria.
Aos poucos o diretor vai trocando o tom do filme. O que começou com um policial noir vai dando espaço a um drama psicológico. Parece haver algo errado com aquela instituição dirigida por Ben Kingsley e Max Von Sydow. O drama policial vai dando espaço para o psicológico e a própria sanidade dos personagens começa a ser questionada. Até mesmo uma conspiração de experimentação psicológica que pode estar acontecendo na clínica surge. O que será verdade e o que não é?
Aqui é que o filme perde sua força. Scorcese tenta realizar um filme com toques de Hitchcock, mas mesmo com sua enorme habilidade isso é uma tarefa isso se mostra ingrata. O mestre do suspense se valia se um único MacGuffin (um truque no filme, para enganar a platéia) em seus filmes. Scorcese faz uso de tantos que o filme parece estranho demais e fica a impressão que algo está muito errado.
O resultado faz com que o filme fique confuso em demasia e perca seu ritmo. Acho que a única coisa que impede o filme de ficar sonolento é a participação de ótimos atores como Emily Mortimer, Patricia Clarckson e Jackie Earle Haley. O final acaba sendo fraco demais para um filme desse porte. Claro que alguns dirão que há um detalhe no final que grita a genialidade do diretor. Eu não concordo. Facilmente se percebe que nenhuma cena no final se compara com as do meio do filme, quando ele ainda tinha um ritmo (em especial as cenas de sonho, que são maravilhosas). O final faz, na verdade, o resto do filme parecer desnecessário. Um desperdício de talento.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

O ESCAFANDRO E A BORBOLETA – LE SCAPHANDRE ET LE PAPILLON

NOTA : 8,5.

Esse não podia mesmo ser um filme americano. Imagine um cinema que preza a ação fazer um filme sobre um homem que somente move o olho esquerdo? Parece improvável, né? E olhe que eu mesmo tinha preconceito com esse filme por conta disso.

O filme começa com a câmera em primeira pessoa com médicos indo e vindo explicando para o paciente a situação dele: sofreu um derrame seríssimo e acabou de acordar do coma. Somente com quinze minutos de filme, associamos a voz a um rosto: Mathieu Amalric, mostrando porque foi escolhido para ser o vilão de 007 com uma atuação fantástica, interpretando melhor com um olho que a maioria dos atores com o corpo inteiro. Além da atuação impecável de Amalric, não posso deixar de dar um destaque especial para Max Von Sydow, que dá uma dimensão impressionante ao pai de Jean mesmo com pouco tempo em cena.

Incapaz de fazer qualquer coisa, ele começa a se comunicar quando a terapeuta cita o alfabeto para ele piscar na letra que deseja. Isso logo com um homem que é editor da revista ELLE e que se mostra sempre apaixonado pela vida. Passado o desespero da imobilidade (inclusive o tradicional pedido para morrer), Jean-Do aceita sua condição e vai além: resolve escrever um livro. E assim o filme segue, mostrando a odisséia que foi escrever o livro durante o dia a dia de Jean-Do, que viveu 10 dias além do lançamento do livro. Uma força de vontade de viver que pode inspirar muita gente. Afinal, se ele escreveu um livro, isso mostra que podemos fazer muita coisa...

Não posso esquecer de dar o crédito a outro coadjuvante importantíssimo: o diretor de fotografia Janusz Kaminski (esse, colaborador dos (pelo menos) dez últimos filmes de Steven Spielberg). A fotografia do filme é uma das melhores da história do cinegrafista e torna o filme muito mais belo visualmente. A câmera é viva e uma personagem (muito) importante para contar essa história que merecia ser contada...

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