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terça-feira, 26 de março de 2013

ANNA KARENINA


NOTA: 5.
- Anna não é uma criminosa, mas ela transgrediu as regras.

As mulheres nem sempre foram bem retratadas na literatura. Vejamos dois exemplos notórios, como Anna Karenina (Leo Tolsttoy) e Madame Bovary (Gustave Flaubert). A primeira rejeita toda a mordomia que tem ao lado do marido para viver ao lado de seu verdadeiro amor. A outra rejeita seu verdadeiro amor para conseguir subir hierarquicamente. O que ambas tem em comum? As duas sofrem pelo peso de suas escolhas. Seja perante a sociedade, ou por não aguentar o próprio caminho que escolheu.
Joe Wright, que tem bons filmes em seu currículo como Desejo e reparação, Orgulho e preconceito, e que mais recentemente dirigiu o filme de ação Hanna; faz deste filme uma obra de arte em termos de técnicos, como figurino e cenários, mas não parece ter uma direção certa para ir como em seus filmes anteriores. Apesar de ser corajoso na forma em que adapta o filme, ainda assim não consegue fugir das convenções do gênero.
Ele é corajoso por seguir uma linha diferente do que já havia feito. Várias vezes, vemos as cenas se desenrolando como se fosse um teatro (eu diria que pelo menos metade do filme foi realmente rodado em um teatro), com trocas de cenários e tudo o mais. Mas ao mesmo tempo, não é um teatro. Ele mistura as linguagens de forma a fazer uma coisa diferente. Não temos um filme convencional e não temos um teatro. É uma pena que esse coragem estética não tenha sido acompanhada de uma coragem literária de realmente nos surpreender.
Anna Karenina é uma mulher que comete adultério e se apaixona verdadeiramente por seu amante. Ela não abandona somente seu status perante a sociedade para ficar com ele, ela abandona seu filho, se torna a principal fonte de intriga e fofoca entre seus iguais (que já não mais a consideram iguais), e paga um alto preço por sua paixão. Seus sentimentos são verdadeiros, mas ainda assim não há espaço para quem comete um "erro" desses. Suas escolhas são inaceitáveis perante a sociedade.
Karenina (Keira Knightley) se apaixona por Vronsky (Aaron Johnson), que não parece conhecer muito do que pode acontecer quando se tem um caso com uma mulher casada. Seu marido é Karenin (Jude Law), que parece perceber o romance e apenas pede para que a mulher seja discreta. Mas ela é apaixonada demais para discrição, o que a leva à ruína. O romance, paixão ou mesmo a atração podem ser passageiras, mas a fama que ela adquiriu ficará para sempre.
O filme é muito extravagante e bonito, mas a produção acaba se sobrepondo à história. Em várias cenas, não consigo distinguir a atuação dos atores de encenações que não parecem reais. Parece que muitas vezes eles param de atuar para tentar lembrar suas marcas, como se estivessem ainda nos primeiros estágios de ensaio de uma peça teatral. Um erro fatal principalmente se considerarmos que se trata de uma história tão rica em detalhes e nuances que acabam ficando perdidas em meio ao visual.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

SELVAGENS - SAVAGES


NOTA: 8,5.
- O fato de eu estar contando essa história não significa que eu estarei viva ao final dela.

Meu ódio será sua herança, mostrava bandidos americanos quase aposentados que se misturavam com uma nova era de bandidos muito mais cruéis que eles. Assim como no filme de Peckinpah, Oliver Stone nos mostra uma história que lida mais ou menos sobre o mesmo assunto. Ainda que seja um pouco estranho o fato da maldade estar sempre do lado mexicano, é interessante vermos a evolução da maldade no velho oeste e num tempo mais próximo de nós.
Os americanos são Ben (Aaron Johnson) e Chon (Taylor Kitsch), dois produtores e distribuidores de maconha que atuam no mercado da Califórnia. Os dois vivem num triângulo amoroso com O, abreviatura de Ophelia (Blake Lively). É ela quem começa narrando o filme e diz a frase de abertura da resenha. A história do filme é tão distorcida, que acredito que possa dizer que é possível que ela esteja viva e morta ao final do filme. Apesar de parecer um conceito estranho, quem assistir entenderá.
Eu poderia dizer que o que teremos será uma batalha entre o bem e o mal, exceto que não há ninguém neste filme que esteja do lado do bem. O que temos é o lado americano que lida com os negócios de maneira tranquila usando a violência apenas quando necessário, e os mexicanos liderados por Elena (Salma Hayek) que usam de violência para conseguirem tudo o que querem e pior ainda, um tipo extremo de violência que conta com decapitações e corpos queimados.
Ben e Cho recebem um vídeo com várias cabeças no chão no que pode ser um trabalho realizado por Lado (Benicio del Toro), o braço direito de Elena. A mensagem é clara, eles devem negociar uma divisão de negócios ou se arrepender. Eles planejam sair de cena e ir para outro continente para evitar uma guerra, mas Elena rapta O e eles devem cooperar até encontrar uma forma de recuperar a mocinha. E antes que alguém pergunte, isso não é um spoiler. Qualquer trailer do filme mostra isso. Contar o que vem depois seria um spoiler.
Nessa trama toda, ainda temos o personagem de John Travolta, Dennis. Ele é um agente do departamento anti-drogas dos EUA que aceita propina de Ben e Cho. Não tenho certeza do quanto ele finge estar dando informações para os dois e o quanto ele está se aproveitando deles para conseguir informações. Ele é um ponto de interrogação na trama, e muito interessante.
O mais interessante de acompanharmos aqui é como Stone lida com as negociações por O. Depois de alguns filmes um pouco decepcionantes do diretor, é bom vê-lo voltar à velha forma num filme que explora o "lado negro" como ele costumava fazer. Além disso, poderá se interessar pela volta ao lado lúdico que ele parecia ter perdido a vontade de contar. Não é seu melhor filme nem um filme com tanto entusiasmo quando começou sua carreira, mas com certeza é tão interessante para nos lembrar deles.

terça-feira, 19 de junho de 2012

O GAROTO DE LIVERPOOL - NOWHERE BOY


NOTA: 8.
- Não faz sentido odiar alguém que você ama.

Este filme conta a adolescência de John Lennon (Aaron Johnson). Nessa época conturbada em que ele decidiu começar a sua carreira como músico e formar a banda que viria a ser conhecida como The Beatles, ainda que esse nome não seja mencionado em nenhuma parte do filme. Ele cresce sob os cuidados de sua tia Mimi (Kristin Scott Thomas). Escrito também pela meia-irmã dele, o filme parece preencher alguns pedaços da vida do astro que eram até então desconhecidos.
Lennon reencontra sua verdadeira mãe no enterro de seu tio, e ele acaba se interessando pelo jeito apaixonado que ela lhe mostra. Muito diferente do modo que sua tia o criou, que apesar de o amar sempre se mostra um tanto quanto fria e distante. Lennon aprende no filme que sua mãe era incapaz de o criar e por isso foi morar com sua tia, mas o que ele não sabia é que sua mãe mora no mesmo bairro que ele, apenas alguns minutos longe dele.
Pela proximidade, é possível que ela tenha o visto algumas vezes pela rua enquanto ele crescia, tanto que quando ele vê aquela mulher o encarando no enterro do seu tio ele sabe quem ela é. Talvez ela tenha se mantido afastada por respeito à irmã, mas quando ele bate em sua porta ela está pronta para se mostrar bem diferente do que ele esperava. Eles são parentes diretos, mas ainda assim estranhos um ao outro. 
Não esperem o surgimento de um dos maiores fenômenos de todos os tempos. A fama global e "maiores que Jesus" não parecem estar sequer perto de aparecer neste filme. Este não é um filme sobre isso. O filme deliberadamente foca em contar a história da adolescência de um rapaz crescendo na cidade de Liverpool, como era a sua relação com seus tios, mãe e amigos. Um rapaz um pouco arrogante e ao mesmo tempo vulnerável.
Claro que eventualmente vemos a banda se formando ainda que não seja o foco. Lennon monta a sua banda e a ele se junta Paul, que o apresenta a George, e Ringo obviamente não tem como aparecer num filme que conta apenas o início da trajetória da banda. É apenas para assistirmos como uma banda icônica realmente começou, sem sonhos de grande sucesso ou promessas de dinheiro. Somente rapazes que se juntam para se expressarem através da música, que pode ser a única forma que eles conhecem como fazer.
Um dos motivos para assistir o filme é a presença de Aaron Johnson (de Kick-Assno papel principal, que consegue passar ao seu personagem uma certa raiva e sensibilidade ao mesmo tempo. Lennon não parece saber seu lugar no mundo, porque tanto lhe foi escondido que ele sequer sabe. É somente quando ele entra neste papel de astro do rock meio bad boy que parece descobrir seu lugar. E Johnson consegue captar essa nuance e nos fazer acreditar que realmente conhecemos John Lennon.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

KICK-ASS: ARREBENTANDO TUDO


NOTA: 7.
"Sem poderes, vem nenhuma responsabilidade. Exceto que isso não era verdade." Kick-ass

Esse é o segundo filme baseado em um quadrinho de Mark Millar. Em 2008 já tinha chegado nos cinemas o (também) ultra violento Procurado, com Angelina Jolie e James McAvoy. Nunca li nenhum desses quadrinhos que originaram os filmes, então me pergunto se os mesmos também são tão violentos ou se os filmes estão apenas seguindo um triste padrão. Afinal, Gladiador não tinha tanta violência quanto.
Aqui acompanhamos um nerd de colégio que resolve ser um herói fantasiado. Ele não tem o menor jeito para a coisa. Claro que durante o filme ele apanha mais que consegue bater em alguém, mas devo reconhecer que o esforço é louvável. Ou talvez ele seja apenas masoquista. Sua iniciativa faz com que surjam outros com a mesma idéia, e estes são Big Daddy (Nicolas Cage) e Hit Girl (Chloe Grace Moretz) . Diferentes do herói do título, esses sim tem jeito para a coisa.
A premissa do filme é que nenhum deles são super-heróis. Na prática, porém, tudo vai por água abaixo assim que Hit Girl entra em ação. A menina de 12 anos pula, atira e bate como nenhuma pessoa normal conseguiria. E digo mais, ela domina artes marciais como nenhuma outra pessoa de qualquer idade. Incluindo Jet Li e Jackie Chan. Além disso ela tem a incrível capacidade de falar mais palavrões que o mais desbocados personagens já falaram.
Se a personagem por si só já parece perdida para o lado negro, imagine vê-la sendo espancada por adultos com o triplo de sua idade e seu tamanho. Se para algumas pessoas, verem adultos sendo espancados já pode incomodar, imagina alguém dessa idade. Além disso, ela sequer se importa com as consequências de assassinar dúzias de pessoas. Talvez por causa da criação psicopata de seu pai, que quer apenas acabar com o império de um chefão criminoso (Mark Strong, se especializando em vilões), mesmo que para isso sacrifique a infância da menina.
Ainda assim o filme não é uma perda de tempo. Diferente dos filmes que escrevi na última vez, este pelo menos tem boas cenas de ação. Com muito sangue jorrando, claro. Me preocupa um pouco que esta seja a tendência dos novos filmes. Vamos ver o que o futuro do cinema reserva para nós. Ah, sim. Há ainda a presença do mais conhecido nerd dos cinemas: McLovin, fazendo o filho do chefão e também o "herói" Red Mist. Hilário.
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